O Pioneiro do Bambu

21 de julho de 2009



Foi em meados dos anos 70, sentado num posto de gasolina, que o jovem shaper californiano Gary Young (foto) teve o primeiro insight sobre a necessidade de buscar novas alternativas para a fabricação de pranchas que utilizassem recursos renováveis e não dependessem de derivados do petróleo - o mundo vivia na época uma crise de abastecimento do "ouro negro" com o embargo da OPEP.

Com esta idéia na cabeça, ele passou a desenvolver a sua arte em pranchas fabricadas com compostos de madeira, utilizadas por grandes nomes do surf na época, como o sul-africano Shaun Tomson. Mas foi por acaso, muitos anos depois, que ele teria o seu primeiro contato com as fibras de bambu, um encontro que marcaria para sempre a sua vida pessoal e profissional.

Young já passara por altos e baixos de sucesso comercial fabricando pranchas de surf e pranchas a vela (sua segunda paixão) com a marca Woodwinds, quando descobriu nas propriedades do bambu o casamento perfeito entre qualidades técnicas e recursos naturais recicláveis.

A lista de vantagens técnicas e ecológicas do uso do bambu que Young apresenta no rico conteúdo do website da Bamboo Surfboards é imensa: muito utilizadas para diversas funções no Oriente por conta de sua enorme resistência e flexibilidade, as cerca de 1200 diferentes espécies de bambu levam em média apenas 03 anos para poderem ser reaproveitadas e, quando cortadas, crescem cada vez mais fortes, numa incrível média de duas polegadas por hora. Além disso, as florestas de bambu não necessitam de replantio, pois se recuperam naturalmente e crescem até em solos de áreas degradadas.

Radicado num isolado retiro nas montanhas da Big Island havaiana desde o final dos anos 80, Gary é um artesão pioneiro no desenvolvimento das pranchas revestidas de bambu e utiliza a sua inovadora técnica de "embalagem à vacuo" para moldar pranchas de surf, stand-up-padles, snowboards, canoas, peças de mobiliário e, mais recentemente, uma moderna recriação das clássicas alaias - batizada de alaia lite - em compostos de bambu com pouca resina epóxi e espumas recicláveis na parte interna.

Apesar de uma mal fadada parceria com empresários australianos, que rendeu uma amarga batalha legal pelos direitos sobre sua invenção, Gary segue firme com sua marca Bamboo Surfboards, na missão de desenvolver suas criações ecológicas e se diferenciar dos muitos imitadores que utilizam fibras de bambu processadas com colas altamente tóxicas e, portanto, nada ecológicas.

Em entrevista por email, ele revela um pouco de sua visão e do trabalho de mais de 30 anos com compostos de fibras naturais, na busca por alternativas sustentáveis que ajudem a quebrar o paradigma da poluição na indústria do surf - um trabalho reconhecido com o prêmio Green Wave Award 2008 da revista inglesa Surfer's Path.

1 – Fale um pouco sobre como está a sua produção das pranchas de bambu nos dias de hoje?

Minha principal mensagem a respeito das pranchas de bambu é que desenvolvi, e venho aprimorando cada vez mais, um sistema para fabricar pranchas que é completamente mal-entendido pelo setor produtivo do surf. O material publicado em meu website é apenas uma pequena amostra do estágio que havia alcançado no sistema de produção de pranchas há cerca de um ano e meio atrás. Mas como infelizmente muitas pessoas vem tentando utilizar o bambu de maneira imprópria, eu tenho que ser muito cauteloso sobre o que publicar a este respeito.

2 – Qual a sua relação com as tecnologias alternativas na fabricação de pranchas? Como você posiciona o futuro das pranchas de bambu dentro do contexto de performance, preço e método de produção?

Minhas pranchas de bambu não utilizam matéria-prima “tradicional” nem estão inseridas num sistema “tradicional” de produção. As pessoas que surfam com pranchas de bambu, ou entendem o que estou fazendo, concordam que os modelos que produzo são leves, fortes, tem boa performance e são verdadeiramente sustentáveis em seu método de produção. Elas são ainda mais rentáveis que as pranchas “normais” dentro de um sistema de produção. (foto de sua última criação)

3 – Como você enxerga o desenvolvimento da indústria do surf na próxima década? Quais as mudanças necessárias para termos um cenário mais sustentável?

No Hawaii e na Califórnia se você não está “na moda” você não tem representatividade. Você também precisa de promoção e publicidade pesada – o que custa muito dinheiro – ou então ser um “surfista de competição” fora de série. Eu não me insiro em nenhuma dessas alternativas e com 60 anos já estou cansado dos jogos e negócios da indústria do surf.

4 – As pranchas de bambu certamente atraem um público crescente que se interessa pelas questões ambientais e os modelos clássicos de pranchas. Você acha que isso é apenas uma moda passageira ou uma verdadeira mudança na mentalidade dos surfistas?

Minha paixão é criar novas e melhores maneiras de fazer produtos com fibras naturais laminadas e, é claro, que o bambu é uma das melhores. Uma parte importante da minha mensagem é que as pranchas de bambu são apenas a ponta do iceberg. Centenas de produtos podem ser fabricados de maneira superior utilizando bambu e é nessa direção que quero caminhar – explorar e desenvolver os produtos verdadeiramente “verdes” (ecológicos) que não são apenas um slogan de marketing, mas sim, representem (com qualidade) aquilo a que se destinam.

5 – Você já apresentou os seus modelos em bambu para o público brasileiro?

Estou sempre esperando encontrar as pessoas certas com quem trabalhar, incluindo investidores financeiros para produzir as pranchas de bambu. Certamente estou aberto a fazer isto em outros lugares, como o Brasil, por exemplo.

Um comentário:

nélia disse...

oi luciano, estou concluindo o projeto grafico de uma revista de surf carioca e gostaria de divulgar essa noticia com uma nota; mas preciso de fotos. me responde pra conversarmos melhor.. meu mail eh vivianefreitas04@hotmail.com ou jornalismo@revistasoulsurf.com.br
aguardo reposta.
viviane

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