Artista Santista

17 de maio de 2010



Minha admiração pelo trabalho de Jair Bortoleto começou pelo pouco que pude observar do trabalho fotográfico realizado no livro Alma Santista e pelo fato dele ter organizado “na raça” o Festival Santos SurfArt, evento onde conseguiu reunir em terras brasileiras o que há de melhor em surf art no mundo – sem o respaldo de alguma grande marca ou canal de mídia.

Desiludido com a indústria e a mídia de surf no Brasil, no seu apoio quase inexistente para a construção de uma surf art por aqui, ele revela que tem fotografado muito pouco nos últimos tempos: “Na realidade, nunca me considerei um fotografo de surf, pois raramente tiro fotos de ação, por falta de equipamento e tempo. Eu trabalho com navegação em período integral aqui em Santos, e mal me sobra tempo pra surfar, o que prefiro fazer em vez de ficar na areia fotografando.”, afirma Jair.

Em nossa troca de emails, suas criticas e opiniões contundentes sobre a realidade não muito animadora (pra dizer o mínimo) da produção e valorização artística e cultural dentro do mundo do surf no Brasil refletiram percepções que eu gostaria de exibir dentro de um perfil de Jair no Surf & Cult.

Aproveitando que os parceiros da Liquid Salt se adiantaram nesta idéia - sempre com a alta qualidade visual e o formato característico de suas entrevistas -, trago aos leitores a versão traduzida do conteúdo, que revela um pouco da alma deste artista santista.



1 – Como foi a sua infância?

Eu cresci em um subúrbio de São Paulo, longe do oceano. Meu pai era um operário metalúrgico e nós tínhamos uma vida simples, mas boa. Minha família costumava ir à praia nas férias, mas quando eu era pequeno odiava a sensação de areia nos meus pés. Só depois de alguns anos eu descobri o prazer de sentir a areia entre meus dedos.

2 - Quando você conseguiu a sua primeira prancha de surf?

Numa dessas férias de família para o litoral norte, meu pai me comprou uma triquilha 5'8 "e eu comecei a surfar. Eu devia ter em torno de 9 ou 10 anos de idade. Quando eu era pequeno, as pranchas de isopor eram muito populares na região onde passávamos as férias, e eu costumava “pegar jacaré” com elas. Era muito divertido. Eu só voltei e experimentar essa sensação quando surfei deitado com uma alaia.

3 -Qual foi a sensação de ficar em pé numa prancha pela primeira vez?

Eu não consigo me lembrar da primeira onda que peguei, mas eu me recordo na primeira vez que surfei no trilho de uma onda. Eu ainda posso sentir a adrenalina no meu coração toda vez que eu me lembro disso.



4 – Em quem você se espelhava quando era garoto?

Eu fui criado como uma Testemunha de Jeová, então meu modelo é Jesus e seu pai, o Jeová Deus. Eles são meus modelos para tentar ser um bom homem... mesmo com todas as minhas falhas.

5 Como você se envolveu com a fotografia?


Eu sempre amei a aula de artes no colégio, mas nunca tive a idéia de que eu realmente queria me envolver com arte. Eu comecei a viajar o mundo quando eu tinha 18 anos, e sempre trouxe uma camera comigo para documentar tudo. Depois da minha primeira viagem para o Havaí, eu mostrei algumas fotos a alguns amigos e todos eles disseram que eu era um fotógrafo muito bom. Fui para Boston para aprender sobre o jazz, a arte, e a vida real. E eu conheci alguns fotógrafos e artistas. Um deles, uma estudante de fotografia chamada Tiffany Knight, me deu um rolo de película em preto e branco. Eu fiz fotos com ele e depois que vi os resultados, tudo mudou. Comecei a ver o mundo completamente em preto e branco! Então eu decidi usar mais e mais esse tipo de filme.



6 - Qual é o processo de criação de sua arte?

Eu não sou o tipo de fotógrafo que traz a câmera sempre comigo. Eu simplesmente não trabalho assim. Na verdade, eu até gostaria, mas isso não funciona comigo. Normalmente eu vejo alguma coisa e depois volto mais tarde para fotografar aquilo. Ou então eu tenho algo em minha mente e então levo a câmera para filmar. Eu sempre gosto de pensar que cada frame é uma pintura, e se eu conseguir muitas pinturas em um rolo, então está ótimo.

7 - De todos os lugares que você viajou para, que lugar de especial destaque e por quê?

Eu diria que muitos lugares, mas eu simplesmente amo o Havaí. Tudo naquele lugar me faz sentir tão bem. Depois que eu voltei da última vez, senti muitas saudades. E este sentimento de saudade é uma palavra que não encontra tradução em nenhum outro idioma - aquele sentimento de perda que, de tão ruim, você consegue sentir a dor real em seu coração. Eu sinto saudade do Havaí, e assim como Rick Kane no filme North Shore: "Um dia eu voltarei ao North Shore". Isso é o que me faz sentir bem, as memórias e a chance de voltar algum dia.

8 -Quem ou o que te inspira?


Na fotografia, eu diria Cartier-Bresson. Ele foi e, para mim, continua a ser o melhor fotógrafo que já existiu. Além disso, os fotógrafos de surf como Leroy Grannis, Andrew Kidman, Kyle Lightner, Thomas Campbell, Joe Curren – e também a maior parte da fotografia dos anos 60 e 70.



9 - Qual a coisa mais importante que você aprendeu na sua vida?

Fazer o meu melhor para ser humilde. Estamos rodeados por tantos egos que temos sempre que olhar para nós mesmos e tentar ser humilde. E também o amor. O mundo é um lugar tão louco hoje em dia, que a maioria das pessoas se esquecem de amar. Eu me esqueço de amar de vez em quando, e lamento por todos aqueles que fiz sofrer.

10 Você tem algum arrependimento ou gostaria de ter feito algo diferente?

Com certeza ... muitos arrependimentos e desejaria poder voltar no tempo e mudar tudo.

11 – Qual o seu maior motivo de orgulho?


Do meu relacionamento com Deus. Além disso, devo dizer que tenho orgulho do meu livro Alma Santista (publicado em 2007 e a curadoria do Festival Santos SurfArt, especialmente a segunda edição). Apresentar o meu trabalho no Japão para o Festival Greenroom 2009 também foi muito legal.



12 – O que significa o surf para você e como ele mudou sua vida?

Surfar foi um sonho quando eu era criança. Eu estava longe do mar, e tudo se baseava em férias, revistas e algumas coisas na TV. Assim, ter a chance de fazer imagens relacionadas com o surf é como viver um sonho. O ato de surfar é algo difícil de descrever. A maioria das pessoas atribuem o surf a uma atividade atlética e material, mas o surf é mais parecido com estar em contato com a natureza. É como estar em outra dimensão, onde tudo o que importa é uma onda, a prancha e você. Claro, que é bom ter os amigos ao redor, o sol ... mas a sensação de surfar sozinho em uma onda é única e pode mudar para sempre a vida de alguém.

13 - O que te traz mais felicidade no mundo?

Um sorriso. Na maior parte do tempo, eu era uma pessoa preocupada. Mas hoje, eu procuro sorrir mais, e tento não fechar alguma porta que não possa ser aberta novamente. Devemos todos sorrir sem parar! (Risos)

14 – Na sua opinião, quem são as pessoas que estão moldando o caminho para o surf hoje em dia?

Richard Kenvin com essa história da Hydrodynamica. É tão antiga e tão nova, ao mesmo tempo. Todo este movimento novo/antigo é tão bom para o surf e abre muitos caminhos que são agradáveis de se ver. É bom ver a nova era do surf no circuito. Eu estaria mentindo se dissesse que não. Aquele garoto Gabriel Medina é incrível e com certeza é um dos maiores cientistas de surf.



15 - Qual é a sua prancha favorita e o seu pico prediléto?

Eu tenho minhas pranchas especiais, como o modelo que leva a minha assinatura, produzida pelo Felipe Siebert. É uma 5'8” hollow-wood keel fish (veja aqui). Eu amo surfar perto de casa e percorrer a pé todo o caminho até a praia, surfar, e depois voltar para casa. Isso me dá muito prazer.

16 - Qual é a sua comida preferida?

Amo churrasco com os amigos. Cerveja e chocolate.

17 - O que você tem ouvido no seu iPod?

Eu estou ouvindo bastante coisa de Bon Iver, William Fitzsimmons, Neil Halstead, The Mattson 2, Ray Barbee. Além disso, coisas antigas como Bob Marley, Lynyrd Skynyrd, Pink Floyd. Adoro jazz - tudo ... como John Coltrane, Chet Baker, Monk, Miles Davis.

18 - Quais as causas ou as organizações você apoia?

Qualquer coisa relacionada ao surf. Eu sou uma das Testemunhas de Jeová, por isso tentamos nos manter ocupados em falar com as pessoas sobre o Reino de Deus.



19 – Qual o seu principal motivo de agradecimento?

A vida. O fato de poder ver um novo dia. Acordar e ver o sol brilhando. Poder assistir da minha janela os pássaros voando sobre o oceano.

20 - O que vem pela frente na vida de Jair Bortoleto?

Meu principal objetivo é sempre ser um homem melhor, errar menos e escolher os caminhos certos na vida. Eu quero continuar fotografando. Eu não tenho andado muito ativo ultimamente, mas continuo tirando fotos com os meus olhos e em breve elas estarão em filme. E o Havaí sempre estará presente em meu futuro. Eu realmente quero voltar.


Leia a matéria orginial aqui. Conheça o blog de Jair Bortoleto clicando aqui.

2 comentários:

Luis Fernando Mizutani disse...

Também sou muito ligado ao surfe e arte, e gostei muito da entrevista. É uma pena que a surfart no Brasil não seja valorizada como deveria.

Abraço

Anônimo disse...

Olha, fazia tempo que não lia uma entrevista tão bacana. Perguntas interessantes, respostas ponderadas.

Boa, Luciano.
Mais uma!
MB

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