20 Goiabadas

12 de janeiro de 2011



A ideia de produzir uma entrevista com Julio Adler existe desde que eu comecei a publicar o Surf & Cult e tinha como referência essencial o seu blog Goiabada, sem contar nas dezenas de textos saborosos que ele vem publicando em diversos sites e revistas ao longo dos últimos anos - que certamente figuram entre os melhores conteúdos sobre surf já produzidos em língua portuguesa.

Movido por este desejo e pela oportunidade de conhecê-lo pessoalmente tive três encontros com Julio ao longo de 2010 - o primeiro deles durante a etapa do WT Brasil, enquanto assistiamos ao Jadson André e Dane Reynolds detonando as ondas da Vila, e outras duas ocasiões em seu reduto em Ipanema. O conhecimento enciclopédico, as opiniões contundentes e o bom humor apimentado por uma fina ironia, tornaram esses encontros muito prazerosos e informativos... mas nada da matéria sair!

Acontece que o Julio alega ter perdido os seus arquvios de fotos em um HD queimado e a tal matéria com ele acabou por se tornar uma pauta maior contando a história da produção dos muitos filmes de surf que ele editou ao lado de Pepê Cezar, Rafael Mellin, Gustavo Bomba e Marcelus Vianna (ainda inédito). Admito também que não encontrava o formato ideal que desse vazão a tanto conteúdo coletado. Mas como promessa é dívida, surrupiei algumas imagens do facebook do Júlio e bolei esta lista com "20 goiabadas" sobre ele, recheada de referências para quem quer conhecer um pouco mais sobre a produção cultural ligada ao surf.


Julio em ação em Grumari, circa 1990

10 coisas que você deveria saber sobre Julio Adler:

1 – que ele é o jornalista de surf brasileiro mais influente da atualidade, produzindo matérias para revistas como Hardcore, Surf Portugal e o site Surfline, sempre com textos pertinentes e muito bem-humorados onde procura “não se levar muito a sério”. Além disso, Julio também comanda junto com Marcos Sifu e Marcelo Trekinho o divertido e informativo podcast "Séries Fecham" - uma espécie de mesa redonda sobre surf.

2 – que ele colaborou como editor de imagens de ação e trilha sonora para algumas das principais produções audiovisuais de surf no Brasil, como a série Cambitos, Trocando as Bordas, Samba, Trance & Rock N`Roll, Pasti, Surf Adventures 2 e o clássico Fábio Fabuloso.

3 – que ele começou a surfar no Quebra Mar (RJ), tornou-se um surfista profissional dedicado por mais de uma década, sagrando-se Campeão Carioca Profissional em 1990 e encerrando a sua carreira em 1997 depois de ficar "cansado de tanto perder".

4 – Que ele é um jornalista autodidata, sempre foi um leitor assíduo e aprendeu inglês na marra, de tanto ler as publicações gringas de surf e assistir a todos os filmes do gênero. Sua principal referência profissional no jornalismo é o livro “A Regra do Jogo” de Claudio Abramo.

5 – Que os amigos citam sempre a sua generosidade em compartilhar o conhecimento acumulado na memória afiada e alimentada pela extensa coleção de livros, revistas e CDs que possui na sala de sua casa em Ipanema – devidamente batizada de Centro Cultural Julio Adler.


Produzindo o "Diário dos Sinos" em Bells Beach 2010

6 – Que ele começou a filmar quando ainda era competidor, junto com o colega Pepê César, para poderem se ver surfando; foi muito influenciado pelos filmes do Jack McCoy e Taylor Steele e que o filme “Litmus” de Andrew Kidman foi um divisor de águas na sua percepção sobre filmes de surf, mostrando que era possível fazer um filme mais artístico em vídeo.

7 – sua opinião sobre os blogs: "Aqui no Brasil o movimento virtual está bem legal. Antes era muita gente querendo replicar o estilo dos sites e da mídia tradicional, mas agora temos blogs com pessoas preocupadas em emitir opiniões e aproveitar a liberdade oferecida pela internet.

8 – sua opinião sobre a mídia de surf no Brasil: "No Brasil a mídia de surf em geral não tem apreço pela parte editorial. O papel do editor é muito mal interpretado, como se ele fosse apenas um administrador de pautas. Tanto que muitos editores nem se propõem a escrever para a publicação para a qual trabalham”.

9 - - que ele não se prende a nacionalismos nem a idolatrias ao analisar o surf como um esporte profissional: "Esse negócio de patriotismo não existe, ninguém surfa pelo seu país. Essa síndorme de vira-lata dos surfistas brasileiros é uma bobagem".

10 – que ele tem como algumas de suas principais referências e fontes de informação os seguintes veículos: Surfer`s Path, The Surfer`s Journal ("já foi melhor, mas ainda vale muito a pena!"), as tradicionais Surfer e Surfing, a revista/site australiana Kurungabaa, a newsletter da Drift, a Surf Portugal, a Surfing World e a Stab, além de blogs como Alohapaziada e Linha de Onda, e o site da Hardcore. Entre os escritores preferidos estão Derek Hynd e Nick Caroll, que conheceu através das revistas antigas, além de Phil Jarratt e do Paul Holmes da Tracks. Entre os escritores atuais, recomenda os textos de Tim Fischer, Manuel Castro e tem plena convicção que o escritor-viajante português Gonçalo Cadilhe "é quem melhor escreve sobre o assunto em qualquer idioma".


é preciso ler para saber...

10 coisas que você não precisaria saber sobre Júlio Adler (mas que eu vou contar mesmo assim):


1 – que apesar de fazer coberturas inspiradas sobre o circuito mundial de surf, ele prefere passar o título de "Derek Hynd brasileiro" para o Fred D`Orey.

2 – que ele cresceu ouvindo músicas de Chico Buarque, Mercedez Soza, Joan Baez e que hoje sua discoteca é pra lá de extensa e eclética abarcando jazz, mpb, punk rock alternativo e tudo de bom que houver pelo caminho - volta e meia ele ataca de DJ e publica em seu blog um podcast com uma compilação de sua autoria.

3 - que ele sempre leu muito desde criança e passou a ser politicamente engajado por conta do avô cientista ter sido cassado pelo governo em 1970 no episódio que ficou conhecido como Massacre de Manguinhos, onde os militares destruíram a tradição científica brasileira - "Não dá pra ter posicionamento político sem se informar", sentencia.

4 - que ele lembra com saudades do jornal Wetpaper (93), publicação “cult” que editou junto com Gustavo bomba, Pepê, Marcelus Vianna e Agobar Junior – "durou seis números e chegou a ter uma edição bilíngüe, uma coisa inédita no Brasil!"

5 – que ao longo dos últimos vinte anos ele já assinou colunas em várias publicações de surf, com nomes divertidos como "Caneta Pesada", "Tempestade em Copo D`Água", "Coluna Vertebral", "Malandragem é o Seguinte" e "Sopa de Tamanco" - mas sua base sempre foi a revista Surf Portugal onde é colaborador desde 1996 - "se não fosse pelo João Valente (editor da revista) eu não teria onde escrever!".


Júlio e o filho Daniel

6 - que ele acredita na visão romântica de que os sites e revistas de surf devam ser feitos para o leitor e não para os patrocinadores e anunciantes.

7 – que ele é um flamenguista boa praça, ex-aspirante a jogador profissional, tem o apelido "Marreco", é casado, tem um filho e curte tomar um chope com os amigos num boteco perto de sua casa em Ipanema, que segundo ele "serve os melhores pastéis de camarão da cidade".

8 – que ele não curte muito os jornalistas que ficam toda hora falando com nostalgia sobre os velhos tempos, numa visão de que o passado foi sempre melhor que o presente.

9 – que ele acompanhou "in loco" um dia de edição do novo filme de Jack McCoy “A Deeper Shade of Blue” e que fora das publicações gringas de surf ele curte ler a revista Carta Capital, em especial a coluna de gastronomia de Márcio Alemão.

10 - que ele está produzindo um documentário chamado “The Last Hour Of Summer” de autoria do fotógrafo norte-americano Peter Lucas, baseado no resgate de fotografias raras em preto e branco da vida nas praias cariocas no início dos anos 60 - inspirado no documentário "Let`s Get Lost" de Bruce Webber sobre o lendário trompetista de jazz Chet Baker.


Boas referências...

Vale muito a pena ler uma entrevista bem completa que o Julio concedeu em 2005 e que foi publicada no blog Surf Pensado. Então clique aqui.

11 comentários:

Pedro Cezar disse...

Belíssimo post/matéria/perfil/recorte

Ppu

Jair Bortoleto disse...

muito bom!

Mariana Mesquita disse...

Clap, clap, clap.
Cheiro pra Julinho!

Lohran Anguera Lima - Near The Ocean disse...

Parabéns pelo post!
Muito bom.
Abraços!

Lohran Anguera Lima
Near The Ocean
www.neartheocean.wordpress.com

Rick Werneck disse...

É a única pessoa em quem confio para traduzir em palavras, minhas imagens. Sua visão é sempre muito peculiar e sincera.

Marcelus disse...

Belo post!
Aqui vai o meu verbete:
Julídolo. s.m. traficante de informações, amigo dos amigos, pai tamanho família, bom de copo, de surfe e de papo.

Abraço Luciano, Marcelus

Bala disse...

Esse sujeito é um perigo para a sociedade: incentiva o alcoolismo com seu publicitado gosto pela cerveja, advoga a vadiagem como estilo de vida válido, admira e dá aval a renegados e marginais, ouve música subversiva, cita autores de má fama e ainda torce para um time sem nenhuma tradição aristocrática. Em suma: um pária! Orgulho-me de ser seu amigo.

panopramoda disse...

A narrativa do Julio é pura eloquencia! Que ótimo e merecido texto. Genial!

Julio Adler disse...

E como não dizer que Pedro Adão e Silva tá ali com Cadilhe na arte de escrever sobre surfe ?
Duvida ?
Então visita ele no http://lexico-familiar.blogspot.com/
Ou no seu refugio http://ondas.weblog.com.pt/

Anônimo disse...

Parabéns pelo post.
Muito bom!
Lobo

Maurio disse...

Julio é referência!
Foi empolgado com o seu Goiabada que comecei o Alohapaziada.

Que o Goiabada continue sendo sempre nossa fonte de inspiração!!!

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