Remada

5 de março de 2013


Eu remei, mesmo sabendo que olhando de fora aquele mar aberto sempre engana. Que embora as ondas da bancada sem canal não estivessem demasiado altas, a sua constância poderia me impedir de chegar aonde queria.

Eu remei, mesmo com aquele vento nordeste de lado, soprando forte, deixando a formação das ondas bastante prejudicada. Eu remei sabendo que, em poucos minutos, a corrente de leste me levaria a cruzar centenas de metros de norte a sul  naquela eterna faixa de praia em mar aberto, mesmo antes de conseguir – se é que iria conseguir -, varar a rebentação.

E assim eu andei em direção ao norte, na direção do Farol que de tão distante não podia enxergar, que oferecia a proteção que tampouco poderia alcançar em menos de duas horas de caminhada contra o vento. Então em certo ponto eu parei, olhei fixamente para o horizonte e no mar entrei, segurando a prancha com a força das duas mãos para que o vento não a elevasse por sobre a linha do oceano.

Eu remei em meio ao já esperado choque térmico da água gelada trazida pelas ondulações de leste, que sempre ativam, num desconforto inicial, a energia do movimento de aceleração do ritmo das braçadas. Eu remei com vontade na água de tom marrom e espumado, do mar bagunçado e tão conhecido, mas sempre respeitado e imprevisível, onde aprendi a reverenciar os seus movimentos e mistérios.


Eu remei e varei diversas espumas preliminares que vinham ao meu encontro em intervalos cada vez menores. Eu remei e, aos poucos, fui me aproximando da real zona de impacto, onde estavam as ondas que de fora visualizava como o ideal a ser alcançado. Eu remei e submergi talvez centenas de vezes, e forcei os braços na energia de estar vivo e ter um objetivo. E de vez em quando parava para respirar e pensava “não vai dar”, mas ainda havia forças para lutar.

Eu remei e o calor do corpo dentro da roupa de borracha suplantava o resfriamento da água gelada – sim nós podemos suar dentro d’água. Eu remei mais um pouco, depois parei e desisti. Sentei-me na prancha a observar mais uma placa de onda que se fechava tão próxima e inalcançável. Mais uma entre as centenas que observara ao longo daquele dia. E ali por instantes fiquei, refletindo que aquele era mais um daqueles dias em que o mar não me deixaria entrar para deslizar por suas paredes de energia.

Então subitamente me enchi de energia e voltei a remar um pouco mais. E furei cada onda como uma celebração desta certeza, como para apenas demonstrar ao mar que isso pouco importava. Eu remei, pois remando e furando ondas eu estava presente e alerta, vivendo o momento, desfrutando da ligação direta com o oceano. Eu remei para sentir a higiene mental, do banho essencial com a natureza em forma liquida. Eu remei pois assim não precisava mais pensar em nada.

E em certo momento, eu parei de encarar o coeano e apontei minha prancha em direção da praia. E deixei que as ondas bagunçadas me empurrasem de volta ao ponto onde elas passavam por mim apenas como suaves marolas e o vento levantava respingos em meu rosto. Eu havia desistido, mas não estava frustrado, pois havia tentado com toda minha vontade e desejo. E quando voltasse para casa, aquele sentimento de ficar apenas olhando à distância, cogitando se valeria a pena ir para água já teria se dissipado, subsituído pela energia vital da água salgada emanando em meu corpo e minha mente. Sim, é claro que valeu a pena... sempre vale a pena!


E sentado em minha prancha feliz com esta certeza, olhei para o céu e depois fixei-me novamente no horizonte daquele mar aberto. E a tarde que até então caía nebulosa e indiferente, se tranformara.
E muito além das ondas mais distantes, as nuvens mais próximas à linha do horizonte assumiam tons rosados, e de imediato um sorriso espontâneo se formou em meu rosto, na certeza de que amanhã seria um dia de sol e que talvez o vento desse uma trégua e o mar iria se ajeitar.

E assim virei-me novamente para a praia e deitado sobre minha prancha e fui carregado até a areia dura pela primeira espuma que veio em minha direção. E por aqueles instantes eu não estava em confrontação nem com as ondas, nem com o vento e nem com o meu desejo.

Já com os pés na areia, virei-me novamente para onde o vento soprava em meu rosto e avistei minha morada terrestre, na forma um pequeno ponto ao longe. E assim iniciei a minha caminhada de encontro ao vento, seguindo o único caminho possível para casa.

Eu remei em memória das primeiras vezes que ali remei. Das muitas vezes que ainda criança andei a pé pela areia dura, segurando a prancha de baixo do braço com minhas duas mãos, enquanto minhas pernas finas e vacilantes sentiam o castigo das chicotadas asperas de areia carregada impiedosamente pelo vento.



Eu remei recordando o som do vento zunindo em meus ouvidos e querendo me arrancar do chão. Do tempo em que fantasiava com os dias em que conseguiria ser grande o suficiente para varar a rebentação e surfar as ondas de verdade lá fora - não essas espumas reformadas com as quais eu aprendera a ficar em pé numa prancha.

Eu remei na lembrança das tantas vezes em que cruzei aquelas centenas de metros contra o vento, assim com hoje, para depois ser arrastado rapidamende pela corrente do mar ao ponto de partida de minha caminhada. Eu remei por sobre os obstáculos que me fizeram valorizar ainda mais o prazer de deslizar naquelas ondas, nas raras vezes em que a perfeição dava as caras por essas bandas.

Eu remei porque desde aquela época distante, este ambiente me inspirava à reflexão, à fantasia da felicidade plena e da dissipação, ainda que momentânea, dos mais variados problemas. Eu remei em celebração ao desejo de poder voltar muitas vezes a remar neste mesmo mar, e com as ondas salgadas de energia poder me conectar.

Eu remei, pois sabia que haveria dias melhores do que este.
Eu remei, pois sabia que haveria dias piores do que este.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lindo/Belo, um quê de Virginia Woolf no livro "To the Lighthouse".Obrigada, Danielle.

Zanella disse...

Porra muito bom, como sempre..
Escreva mais, p/ nossa alegria.
Grande abs comandante!!

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