Dias e Dias

7 de março de 2014

Não foi por causa da falta de braço na remada devido aos muitos dias longe do mar. Não era o caso. Eu estava de férias na praia e andava surfando diariamente.

Não foi por falta de ondas. Muito pelo contrário. Séries espaçadas de até dois metros abriam longas direitas em direção ao canal, além de esquerdas potentes no meio da praia.

Não foi por falta de equipamento, afinal, a minha 5'7'' quadriquilha larga e de borda grossa oferecia uma excelente remada e estava no pé.

Não foi por causa do excesso de surfistas na água. Crowd havia, mas até que estava bem espalhado. Inclusive remei mais para o meio da praia e em alguns momentos estava praticamente sozinho no pico quando a série se anunciou.

E por que foi então? Como explicar isso em termos palpáveis, além do que podemos chamar de falta de sintonia ou falta de sorte? Haveria algo de metafísico no fato de as ondas insistirem em driblar os meus esforços em alcança-las?

Que existem dias e dias todo mundo sabe. Que existem "dias sim" e existem "dias não" - e não há nada que possamos fazer quanto a isso - é algo que venho comprovando na prática ao longo do tempo.

No caso dos "dias não", eles podem acontecer sim em uma sessão de surf, mesmo prevalecendo a velha máxima de que ao sair do mar nos sentimos sempre melhor do que quando entramos.

Serviu como pista o fato de que as três melhores ondas do dia encontraram invariavelmente o mesmo camarada de funboard que se posicionava sempre próximo a mim, mas o suficientemente distante para que ele tecnicamente nunca me rabeasse.

Pouco ajudava então a consequência de ver-me inquieto, tentando conter um sentimento de raiva invejosa, a ponto de remar com a testa franzida na direção oposta ao surfista que experimentava o seu "dia sim" - o dia em que as ondas se oferecem a você como por passe de mágica.

E quando uma das maiores ondas do fim de tarde acabou espumando numa fechadeira justamente no meu único drop decente, eu já deveria saber.

E quando embiquei logo na cavada da segunda e última onda que peguei antes de escurecer, apenas aquiesci e sorri em desgraça.

E então saí vencido da água, lembrando que, para o bem ou para o mal, amanhã seria outro dia.



crédito fotos: Antonio Carvalho Cabral

3 comentários:

Fernando disse...

Post nota 10.

marcos antony Feltrin disse...

realmente, tem dias onde parece que tudo está perfeito mas não consegue pegar uma onda e dias em que as condições estão totalmente adversas mas você sai com a "cabeça feita" surfe é vida.

João website disse...

Poeta surfista! falou tá falado! bacana ver a maturidade aliada ao profissialismo! parabéns! e quem manda no dia sim e dia não no fim é sempre a natureza!

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