Poeira Ao Mar

23 de fevereiro de 2011



A chuva fraca alisava as ondas nas pedras do Arpoador. O contraste das nuvens com o brilho do meio-dia tornara o mar um espelho reluzente. O vento estava praticamente parado e o sol, mesmo escondido atrás de nuvens carregadas, imprimia uma claridade ofuscante. Exausto após duas horas remando dentro d`água, saía do mar com minha prancha debaixo do braço, sereno e satisfeito com as muitas ondas surfadas.

Caminhando pela areia avistei uma senhora. Devia ter uns sessenta anos e estava elegantemente vestida com blazer e sapatos pretos. Na mão esquerda segurava uma sacola de papelão grosso. Com a outra mão acenava em minha direção. Aproximei desconfiado: O que fazia aquela mulher bem vestida, parada na areia da praia em um dia chuvoso? O que queria de mim? Esperava qualquer coisa, menos as palavras que vieram de sua boca: “Você faria o favor de jogar as cinzas de uma pessoa no mar?”, perguntou com um ar carregado e os olhos escondidos por trás dos óculos escuros.

Pego de surpresa, hesitei por um instante antes de aceitar. A senhora então tirou de dentro da sacola um saco plástico grosso, daqueles usados em vasos de plantas. Imaginei que as cinzas estivessem guardadas em um compartimento mais elaborado e sem jeito perguntei se ela gostaria que eu levasse o saco até o alto mar, ao que respondeu não ser necessário.



Segurei o saco, fechando-o com o punho cerrado. Era bem mais pesado do que esperava. Caminhando pela água com o saco de cinzas na mão fixei-me no horizonte sem olhar para trás. Respirei fundo. Jamais havia participado de uma cerimônia de enterro ou cremação. Na perda de familiares e amigos, as circunstancias do destino sempre me deixaram distante de tudo isso. Não que isso me incomodasse particularmente, já que sempre tive uma certa aversão a velórios e enterros cristãos. Tudo me parece muito triste e sofrido, apesar de que em outras religiões, estes eventos podem ser regados por cânticos animados e uma emocionante celebração coletiva da vida.

Seja como for, a cremação, a volta ao pó por meio da chama incandescente, do calor extremo, sempre me pareceu a forma mais rápida, honesta e indolor de dar um fim a carcaça humana, o último vestígio material da alma que um dia conhecemos. O ritual de despedida existe em todas as culturas, de uma forma ou de outra. Para os que se vão é uma libertação. Aos que ficam, resta o sofrimento da perda, a impossibilidade de novas vivências, ou futuras lembranças com aquela pessoa querida.

Agora o destino me colocara ali, dentro do mar, com a vida de um desconhecido, ou o que restou dela, em minhas mãos. Senti uma responsabilidade tremenda: aquela senhora confiara a mim a tarefa de prestar uma última homenagem àquela pessoa. Ela se recordaria para sempre desta cena e passei a questionar me de que maneira poderia fazer daquele um momento belo e especial.



O fato é que sempre imaginei ser cremado também. Gostaria que minhas cinzas fossem jogadas naquela praia ao sul onde considero que estão minhas raízes. Local das primeiras e fundamentais descobertas da vida, dos encantamentos da infância, que marcam para sempre a nossa existência. Carregadas pelo vento, que sempre sopra forte, cheguei a sonhar com minhas cinzas espalhando-se do alto das dunas de areia, em direção ao mar aberto.

Mas neste dia no Arpoador não havia nada além de uma ínfima brisa e, ao contrário do que imaginara, as cinzas eram partículas negras tão minúsculas, que grudavam entre si, formando uma camada densa e escura. "Poeira do universo, a idéia exata do que somos", assim dizia uma música... apesar da pretensão de grandeza que cada um tem em seu pequeno mundo particular. Nada mais correto então do que voltar ao mar, a imensidão azul, fonte de toda vida. Começo, fim e recomeço, o ciclo vital!

Tudo isso passava por minha mente quando parei de caminhar, já bem próximo da arrebentação. Segurei o saco com a mão direita firmando a base e deixando livre a abertura no topo. Tomado por uma irresistível curiosidade, inclinei a cabeça para dar uma última olhada naquelas cinzas. Instintivamente atirei o saco com força na direção de uma onda prestes a quebrar. Na trajetória parte das cinzas saíram do saco, chocando-se contra a crista da onda. O resultado do embate foi de uma beleza plástica que superou minhas expectativas: uma nuvem escura de partículas salgadas se formou e se dissipou para o alto como em câmera lenta, enquanto o saco afundava, naquela minúscula, porém eterna, fração de tempo.



Com nada mais a fazer, voltei-me para a areia, caminhando lentamente, enquanto a senhora imóvel apenas me observava. Mas afinal, quem era o desconhecido o qual suas cinzas me foram confiadas: - “Era meu marido”, explicou. “Ele queria que suas cinzas fossem jogadas nas ilhas Cagarras, mas com esse tempo ruim, não consegui nenhum barco que me levasse até lá”, completou.

Decidiu então depositar as cinzas no Arpoador, local onde o marido adorava caminhar, e que ficava de frente para as tais ilhas - a poucos quilômetros de seu último desejo, não concretizado. A senhora me agradeceu muito pelo gesto, ao que respondi ter sido uma honra. Também quis saber se achava que o momento havia sido bonito, ao que respondi afirmativamente. Contei a ela que também gostaria de ser cremado, e que o mar era mesmo o melhor lugar para se depositar as cinzas de alguém. Foi uma opinião sincera. Afinal, o mar representa a liberdade, e, portanto, todo o prazer e a alegria de se viver, principalmente para um surfista ou alguém que simplesmente se alimente da energia de apenas contemplar a magnitude do oceano.

A senhora fez um aceno de despedida e caminhou até um táxi que a esperava na calçada, desaparecendo lentamente. Permaneci na areia, olhando para as ilhas Cagarras, absorvendo o acontecimento: Quem teria sido aquele homem? Quais teriam sido seus desejos, suas ambições? Teria alcançado a felicidade que buscara ou este último desejo não realizado de ter suas cinzas jogadas nas ilhas tão próximas e distantes ao mesmo tempo seria o último testemunho simbólico de que sua vida fora uma série de metas não alcançadas? Mas agora tudo isso pouco importava, pois o que eu conhecera de sua vida eram apenas cinzas, indistinguíveis, como as de qualquer outro indivíduo que fosse cremado. E este sentimento de insignificância tem um poder esmagador.



Repasso então o sentido da vida; expectativas e despedidas antecedem e sucedem todos os momentos de nossa existência. A morte de uma pessoa amada nos confronta com o desejo de viver, de se viver cada vez melhor e mais intensamente. O espírito de quem foi se liberta. Aos que ficam restam a dor e a lembrança. Esta última não precisa de restos de carne e osso, trancados num recipiente, e enterrados de baixo da terra, para uma lenta decomposição.

Da mesma maneira, muitas pessoas vivem e morrem dentro de nossa história. O consolo da lembrança de bons momentos encontra a remota certeza, ou a latente expectativa de que um dia reencontraremos este alguém que nos marcou, seja neste plano material, ou em qualquer outro que nossa fé nos assegure. E para registrar este sentimento, uma placa com um nome gravado não se compara à libertação oferecida pelo mar. Suas ondas são como as boas recordações que jamais deixam de voltar.

Texto extraído do livro Expectativas e Despedidas (2002) de minha autoria. Crédito das fotos: momentos no Arpoador por Beto Paes Leme.

5 comentários:

Cau Cabral disse...

Lindo.

lin. disse...

Caro Luciano,

Valeu por compartilhar um texto tão profundo, sensível e inspirador.

Penso que somente quando reconhecermos e aceitarmos a natureza impermanente que permeia a nós e a todo e qualquer fenômeo que se manifesta em nosso mundo, é que talvez, a morte seja encarada naturalmente, como mais um aspecto da vida. Quando isso acontecer, certamente nossas vidas ganharão um novo e precioso sabor.

Grande abraço,

PS: Coincidentemente, ontém subi um post que carregava uma citação que era mais ou menos assim: "WATER MEANS LIFE"...

Rafael Frizzo disse...

Linda menssagem ...

Anônimo disse...

Ótimo texto, realmente inspirador..

Anônimo disse...

Show!!

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