Conteúdo Próprio

3 de março de 2015


A criação do website Deriva parte fundamentalmente do desejo de um contingente de surfistas profissionais em tomar as rédeas da divulgação dos seus trabalhos autorais, de uma forma direta e independente, sem o filtro da imagem transmitida ao público pelos seus patrocinadores. Um conceito que atrai sobretudo aqueles surfistas que curtem exercitar sua veia artística como complemento à sua vida de atleta.

A proposta capitaneada pelo videomaker Pablo Aguiar, o surfista profissional Tomas Hermes e o designer Guilherme Rosa foi lançada oficialmente em outubro de 2013, baseada num esquema coletivo e dinâmico de atualizações - em sintonia com projetos artísticos coletivos da internet ligados a outros temas, onde a união faz a força na hora da divulgação de trabalhos artísticos autorais.



Focado em um conteúdo original de fotos e vídeos curtos com atualizações diárias, Deriva é um site recheado de imagens de bastidores (chamado por muitos de “lifestyle”) e ação nas ondas, reunindo nomes expressivos da nova e talentosa geração de surfistas profissionais, como Alejo Muniz (na foto acima), Yago Dória e Jesse Mendes, junto com o trabalho de outros surfistas já bastante ligados às artes, como Junior Faria e o próprio Tomas.

“Estamos plantando uma semente agora e esperamos colher os frutos num futuro próximo, fazendo algo totalmente novo aqui no Brasil”, explica Guilherme, ressaltando que “a maior dificuldade no momento tem sido fazer as pessoas se acostumarem a entrar todos os dias no site, pois praticamente todos os dias tem algo novo e totalmente exclusivo feito por nós.”.



Mais do que um conceito fechado entre um grupo de amigos surfistas e artistas, os criadores enxergam o site/revista Deriva como um projeto agregador, aberto a todos os surfistas que tenham algum conteúdo criativo e original para apresentar - - um exemplo disso é o video mais recente publicado com o "monstro dos aéreos"  Franklin Serpa, acima. Apesar do formato independente, eles explicam que as marcas dos atletas envolvidos também poderão usar a plataforma Deriva para divulgar os seus filmes e making of.

No universo do surfe online, o projeto What Youth, um híbrido de site e revista norte-americano que agrega surfistas, videomakers e fotógrafos da nova geração, é o veículo que mais se assemelha à proposta do site Deriva e uma inspiração imediatamente reconhecida pelos seus criadores: “Achamos o conceito do What Youth genial. É uma pena que eles se fecham, mostrando apenas os gringos e deixam os brasileiros de fora”, afirma Guilherme, acrescentando que “por outro lado, isso nos abre um espaço para valorizar a nossa galera e o surfe do Brasil”.

E para quem ainda não entendeu bem como funciona a plataforma Deriva, o texto de abertura do site é bem explicativo quanto às motivações de seus criadores: “Estamos à Deriva, mas não parados. Produzimos fotos, vídeos, vivemos na praia, mas também somos influenciados pelo urbano. Um espaço virtual onde teremos pequenos pedaços da galera ao nosso redor”.

Matéria publicada originalmente na edição 2.3 da revista The Surfer's Journal Brasil. Fotos: divulgação Derivamag.

Águas Desconhecidas

23 de fevereiro de 2015


Com o lastimável encerramento da publicação da revista The Surfer's Journal Brasil decidi resgatar algumas das dezenas de matérias escritas por mim para a seção Mar Agitado da revista e compartilhar semanalmente com os leitores do Surf & Cult. Pra começar, uma entrevista com Craig Griffin, diretor da mais recente e completa biografia do ícone do surf australiano Wayne Lynch em matéria publicada originalmente na edição 2.3 da já saudosa TSJ Brasil: 




Mais do que um dia na vida de Wayne Lynch

As biografias de surfe definem o australiano Wayne Lynch como um ‘evolucionário’, um ‘surfista a frente do seu tempo’, que adotou uma postura evasiva em relação à indústria do surfe como esporte, tornou-se um bem-sucedido shaper e manteve ‘a mesma linha limpa no tubo por mais de 30 anos’.

Ao longo de toda esta jornada, Wayne teve cultivada a sua aura de herói rebelde, um surfista recluso e inovador, capturado em filme apenas em alguns grandes e esparsos momentos, em produções como “Evolution” de Paul Witzig (1969), “ A Day In the Life of Wayne Lynch” de Jack McCoy (1978) e, mais recentemente, no alusivo “Another Day in The Life of Wayne Lynch” de Cyrus Sutton (2011).

Lançado em julho de 2013, o documentário “Uncharted Waters – The Personal History of Wayne Lynch” do diretor Craig Griffin se propõe a oferecer um retrato biográfico aprofundado e definitivo sobre este ícone do surfe australiano, a partir de depoimentos do próprio Wayne e de uma extensa lista de personalidades do surfe mundial.



Ao longo de seus 85 minutos de duração, o filme explora em detalhes a história do garoto prodígio que abandonou o circo das competições logo em sua gênese no início dos anos 70 e se isolou nas paisagens desoladas em sua terra natal na região de Victória, no sul da Austrália, para fugir do alistamento militar na Guerra do Vietnã e viver a essência do surfe em sua plenitude.

Criado também nas ondas do litoral oeste de Victória, Craig Griffin é um experiente produtor audiovisual de documentarios que escolheu o conterrâneo Wayne como personagem de sua primeira experiência na direção de um longa-metragem. No intervalo entre as primeiras exibições do filme nos Estados Unidos em junho de 2013, ele concedeu a seguinte entrevista:


1 - Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre Wayne Lynch?

Bom, desde o início eu ficava ouvindo histórias sobre este tal de Wayne Lynch. Por toda a costa oeste de Victória as pessoas falavam sobre tê-lo visto, mas eu nunca o via, então fiquei intrigado. Então em 2009, quando eu o conheci e ouvi seus relatos percebi que havia ali uma grande história. De certa forma, eu comecei a trabalhar neste filme em 2009, mas eu já pensava nele desde meados dos anos 70.


2 – Quanto tempo o filme levou para ser produzido e como ele foi financiado?

Foram quarto anos desde a ideia inicial em 2009 e os últimos doze meses, quando o volume maior do trabalho foi realizado, foram bastante intensos. O filme foi financiado por várias fontes, sendo as principais a companhia White Tag da Austrália, as marcas Patagonia e Revo, além de fundos governamentais daqui, como Film Victória e Screen Austrália.




3 – O que você apontaria como os maiores equívocos que as pessoas tem sobre Wayne Lynch revelados pelo filme?

Wayne está longe de ser o estereótipo de surfista, mas presumo que as pessoas já sabiam disso. Não saberia apontar equivocos, mas eu acho que o público obtém uma boa compeensão sobre a visão de mundo de Wayne e aquilo que o torna tão único.


4 – Quantas pessoas foram entrevistadas para o filme?

Eu entrevistei mais de 60 pessoas, incluindo Gerry Lopez, Nat Young, Barton Lynch, Peter 'PT" Townend, Wayne 'Rabbit' Bartholomew, Maurice Cole, Drew Kampion, Sam George e Dave Parmenter.


5 – Qual o conteúdo de ação do filme em termos de imagens de arquivo e gravações atuais?

Nós gravamos uma viagem de Wayne até a Nova Caledônia, mas a maioria das imagens é de arquivo. Eu tive acesso total aos filmes de Jack McCoy e Paul Witzig – e eles são provavelmente os cinegrafistas principais quando se fala em Wayne Lynch. Então eu pude usar imagens de filmes como Evolution, Sea of Joy e A Day In The Life of Wayne Lynch e Storm Riders – tem realemnte muita coisa boa em todos estes filmes.




6 – O que você considera como os pontos mais importantes e obscuros na vida de Wayne Lynch?

Eu não tenho certeza se há um trecho específico, pois um ponto importante em Wayne é a sua conexão intensa com o litoral e as paisagens onde ele foi criado. Então isso começou desde o seu nascimento e tem continuado ao longo de toda a sua vida.

O filme dá bastante atenção aos efeitos da Guerra do Vietnã em Wayne, quando ele ficou foragido e evitou ser recrutado pelo exército, então eu presumo que a rebeldia juvenil e a emergência da contracultura foram períodos fundamentais na vida de Wayne.


7 – Como você acha que este documentário irá ressoar junto ao público de surfistas e não-surfistas?

Eu acho que o filme irá ressoar em ambos os públicos. Eu sei que os surfistas gostam da história, já que qualquer surfista com algum interesse nesta cultura sabe que Wayne é uma figura-chave no desenvolvimento do esporte e que ele sempre foi um tipo de persongem ‘outsider’ singular. Por outro lado, quem não surfa poderá conhecer de verdade o surfe a partir de Wayne, e talvez alcançar algum entendimento sobre os motivos que levam o surfe a significar tanto para aqueles que amam praticá-lo.

Ciclos

7 de janeiro de 2015


Os ciclos do tempo na virada do ano proporcionaram boas imagens nas locações do documentário A Pedra e o Farol, com registros do último fim de tarde de 2014, o primeiro nascer do sol e a primeira lua cheia de 2015 a beira mar.






O Surf & Cult entra assim em 2015 com boas energias e a perspectiva de um ano com um maior volume de postagens sobre a cultura do surf, além da conclusão e do lançamento deste documentário que registra a beleza do litoral sul catarinense. Que o horizonte siga iluminado.



Locações: Praia do Arroio Corrente, Jaguaruna, e costão da Cigana, Farol de Santa Marta

Ecos do Canhão

12 de dezembro de 2014


Nos últimos dias as redes sociais se agitaram com um tsunami de fotos postulantes ao prêmio XXL de surf em ondas gigantes, seja na icônica e perfeita Jaws em Maui,  em um campeonato de ondas grandes na laje de Punta Galea na Espanha e, é claro, na famigerada Nazaré em Portugal. E foi da mutante e fotogênica onda lusa que novamente vieram as imagens mais aterradoras, dada a magnitude que o singular triângulo do canhão de Nazaré produz quando a onda cria o seu pico montanhoso antes de se desfazer numa brutal avalanche de espuma.



A visão de cima do precipício, onde se aglomeram os fotógrafos e curiosos, já está mais do que batida por conta dos milhares de registros publicados a cada grande ondulação. Foi por isso que me chamou especial atenção estas belas imagens que o amigo arquiteto (e cada vez mais fotógrafo de mão cheia), Ricardo Gonçalves publicou em sua página no facebook, apresentando toda a magnitude de Nazaré a partir de um ângulo distanciado e bastante diferenciado.



Em sua segunda visita ao local, Ricardo, que vive em Lisboa, conta se viu um pouco frustrado em meio à multidão de fotógrafos e curiosos que se aglomeravam para sentir literalmente e terra tremer quando as ondas arrebentavam e tomar uma verdadeira chuvarada com o spray de água que se ergue por quase 60 metros nas pedras. "É muita gente lá em cima, com empurrões e toda a gente a fazer a mesma foto", relata.



Então, a convite de um amigo, ele foi atrás de uma nova perspectiva deste espetáculo da natureza, buscando a visão da onda a partir de um porto na parte sul de Nazaré, onde segundo ele há uma praia que também abriga altas ondas. O resultado foram imagens não menos impactantes da força do oceano e as formas que ele produz, onde a distância do objeto permite dimensionar ainda mais o impacto visual deste fenômeno da natureza, expondo a insignificância humana. "Há uma sensação de calma e harmonia ao estar longe do circo. É só a mãe natureza e esqueces que lá dentro há pessoas a arriscar a vida em prol de um recorde mundial", explica.


De volta ao penhasco mais próximo da onda, Ricardo se concentrou mais nos movimentos do oceano do que na performance dos surfistas. Ele ressalta o impacto do som de trovão produzido pelas ondas que ele calcula terem quebrado com mais de 20 metros, enquanto uma penca de surfistas arriscavam a vida em massas d'água descomunais num pico sem canal definido. "É até estúpido surfar lá pois é muito perigoso. Não são apenas ondas grandes, é uma anarquia gigante, não sei como ainda não morreu ninguém ali", conclui.



Monstro da Laje

17 de novembro de 2014



A gravação da entrevista com o ex-surfista profissional carioca Rodrigo Resende preencheu uma lacuna importante nos relatos sobre o desbravamento da Laje de Jaguaruna pelos surfistas de ondas grandes para o documentário A Pedra e o Farol.  Afinal de contas, foi ele junto com o falecido Zeca Sheffer, que num fim de tarde de inverno em 2003 surfaram pela primeira vez esta onda perdida a 5 kms da costa.




Em seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Rodrigo, que hoje se dedica à profissão de médico, relembrou em detalhes a aventura da descoberta da laje, com todos os desafios que isso implicou, e ofereceu suas impressões sobre tudo o que aconteceu com a fama alcançada pela onda anos depois.


Monster em ação na laje em 2014, still: Lucas Barnis


Um dos surfistas de ondas grandes mais respeitados e premiados do Brasil, "Monster", como também é conhecido, não liga muito para a mídia gerada em torno do surf de ondas grandes, mas como autêntico "surfista de alma" está sempre a postos para pegar as maiores sempre que possível. Foi assim, no último mês de março, quando ele esteve pela última vez na Laje da Jagua, onde surfou na remada algumas das melhores ondas da sessão.

Saiba mais sobre as gravações do filme "A Pedra e o Farol" sobre o surf na Laje da Jagua aqui.

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