5 Pra 1: Bruno Zanin

19 de setembro de 2016


O Surf & Cult retoma sua proposta original de compartilhar e dar visibilidade a trabalhos inspiradores de pessoas que orbitam em torno do surf e suas manifestações culturais. Assim, estreamos neste post a série de entrevistas batizada de “5 Pra 1”, com cinco perguntas para o filmmaker Bruno Zanin, que vem se destacando com um trabalho consistente de curtas-metragens independentes com surfistas brasileiros de alto calibre, como os recentes vídeos com Lucas Silveira e Yuri Gonçalves.

As trilhas sonoras roqueiras e os cenários paradisíacos da Indonésia são ingredientes marcantes no trabalho autoral de Bruno, que iniciou sua trajetória na Guarda do Embaú com o incentivo do saudoso surfista Ricardo dos Santos. Depois de trabalhar em algumas produções do Canal OFF, ele passou a se dedicar de forma independente a registrar os surfistas brasileiros em suas surf-trips, o que gerou o filme "When Your Dream Speaks" e muitos curtas que fazem sucesso na internet.

Radicado em Floripa e adepto ao modelo autoral de "produtora de um homem só" tão comum aos diretores de filmes de surf, Bruno tem no bom humor e na humildade características marcantes em sua personalidade, o que o fez colecionar amigos no mundo das ondas e a manter viva a produção nacional de filmes de surf, apesar das muitas dificuldades encontradas por quem se aventura nessa área. 



1 - Conta um pouco sobre a tua relação com a Indonésia e como foi a sua temporada lá este ano?

Lembro da primeira vez que fui em 2012, só para surfar e curtir, e foi amor a primeira vista! A Indonésia pra mim se tornou um dos lugares mais especiais do mundo, eu me sinto em casa e muito a vontade por lá! A vibe, as ondas, as paisagens e o tratamento que você tem por lá, acho muito difícil encontrar em algum outro lugar do mundo. Isso tem me balançado bastante sempre que estou por lá, a vontade de ficar morando no por lá está bem grande! Quem sabe num futuro próximo! (risos).

Cada temporada tem sido muito especial, ano passado tive a sorte de estar no swell épico de Kandui, e esse ano com certeza vivi meus melhores momentos como filmmaker de surf,  foram incontáveis as ondulações que bateram nas ilhas da indonésia nos proporcionando muito show de talentosos surfistas! Todos os dias antes de dormir ainda penso de como tenho sorte de fazer o que amo e de o quão boa foi essa ultima temporada por lá.


2 - Qual equipamento você usou e qual foi o teu planejamento para as produções que realizou por lá?

O início desse ano foi bem complicado pra mim, 1 mês antes de viajar para Indonésia, durante uma SurfTrip para o uruguai, tive todos os meus equipamentos roubados.. quase 40 mil reais em lentes, câmera, malas, etc... Foram 3 anos de trabalho pela janela, literalmente. Tudo aconteceu de uma forma muito sinistra enquanto estávamos dormindo, aquilo me deixou muito desanimado e triste. Então, vi todos meus amigos me ajudando, e aquilo me deu um gás animal, fizemos festas, conseguimos doações online, pedi empréstimos pro banco, ajuda do 'PaiTrocinio' hehehe e acabou que consegui comprar um equipamento de qualidade para trabalhar nessa temporada!

Já tinha meio que algumas trips fechadas por la, teria algumas semanas de trabalho garantidas que me renderiam uma grana legal para pagar parte dos empréstimos, e no final da temporada eu praticamente não tive tempo livre Graças a Deus! Acabava uma trip, já encaixava outra e por assim foi fluindo!! De equipamento eu usei uma SONY A7S, Duplicador, 100-400 Canon , 24-105 e uma 50mm 1.4. Acho que esse é um kit básico pra surf e lifestyle!



3 - Como seleciona as trilhas sonoras e qual a importância delas nos teus videos?

Eu lembro que quando era pequeno, conhecia as musicas não pelo nome das bandas, e sim por ''A qual filme de surf esta música pertence'' e isso me marcava muito! Tento fazer isso com meus clipes, que as pessoas escutem as musicas e lembrem do meu video! Que se sintam instigadas pela performance dos atletas e a musica em conjunto.. As musicas dos filmes mais antigos eram muito instigantes, com o passar do tempo isso foi se perdendo um pouco, não me adaptei muito a essas musicas modernas.

Mas também,  isso é um pouco subjetivo. Eu me considero um cara mais clássico e acho que o surf "power" precisa de um bom rock'n'roll acompanhando, além do que eu fui criado escutando musica boa e muito rock, meus irmãos, meus pais, meu padrinho, foram grandes influencias nas minhas trilhas que eu uso, sei que eles acompanham meus trabalhos, e sei também que vão ser os primeiros a criticarem quando a musica não for boa! (risos) Graças a Deus nunca reclamaram!



4 - Teus últimos trabalhos tem sido curta-metragens focados em um determinado surfista. Como você avalia os formatos atuais das produções ligadas ao surf e quais os seus planos futuros dentro deste segmento? 

Eu tenho consumido muito video pela web, e tem muita coisa boa sendo feita... Acho que os videos estão ficando mais curtos, acho que as pessoas estão perdendo um pouco de paciência de ficar olhando o mesmo video por tantos minutos.. Eu fico um pouco triste com isso, pois eu tenho feito videos mais curtos agora também pensando nisso, e os últimos clips que fiz do Yuri e Lucas sobraram MUITA onda de reject, que daria pra fazer o clipe duas vezes maior e com muita performance mesmo assim.

Eu sou um cara que gosto de passar horas assistindo videos e observando os mínimos detalhes, gosto de aprender muito com cada produção! O ultimo que chamou bastante a minha atenção foi o "Sorria" do Gabriel Novis, filmmaker brasileiro que vive nos Estados Unidos. O filme me chamou bastante atenção pela fotografia e trilha sonora bem diferente e bem foda ao mesmo tempo!

Estou escrevendo o projeto para meu primeiro "longa". Vai ser algo mais clássico, um filme com sessões separadas dos atletas, trilha sonora pra frente, com bastante humor! No filme quero encaixar o FUTURO, o PASSADO e o PRESENTE! Ou seja, sessões com Fabio Gouveia, Grilão e outros ídolos que marcaram época, alguma sessão com os groms que estão dando o que falar ( Matheus Herdy, Lucas Vicente etc) E sessões com nossos atuais guerreiros do Tour! Não sei se consegui explicar direito aqui o que eu penso, mas na minha cabeça as coisas criaram uma forma bem legal, agora e terminar de escrever, correr atrás de apoio e tentar tirar o projeto do papel!

5 - Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho audiovisual relacionado ao surf o que você faria?

Verba ilimitada? Faria esse meu projeto que esta em minha mente, só que pagaria todos os meus amigos profissionais da área para filmarem e trabalharem junto comigo no projeto, com as melhores câmeras do mundo, nas melhores ondas, com muita cerveja e vibe boa, eu tenho certeza que o filme ficaria muito foda! (risos) Essa pergunta ate me fez sonhar aqui, quem sabe um dia!

 fotos: Bruno em G-Land por William Zimmermann





Vivência Cinematográfica

1 de setembro de 2016


A convite dos organizadores do Lagoa Surfe Arte, evento dedicado à cultura surf que terá sua segunda edição realizada no final do mês de outubro em Floripa, assumi o desafio de coordenar uma Oficina de Produção Audiovisual de Surfe, dentro da programação do evento - que inclui ainda um festival de filmes de surf, exposições, palestras e oficinas de produção de moda e fabricação de pranchas.

Destinado a cinegrafistas e produtores audiovisuais (amadores ou profissionais) que tenham interesse em produzir conteúdos ligados ao surf, a oficina será realizada em três dias de aulas teóricas e práticas, incluindo uma saída de filmagem com surfistas profissionais em uma praia de Floripa. O curta-metragem coletivo produzido pelos participantes durante a oficina será exibido em tela grande no Cinema do CIC dentro da programação do festival, fechando um ciclo completo de realização.

Não me considero propriamente um diretor de filmes de surfe, nem tampouco um cinegrafista profissional, então convoquei para esta missão um grupo de colegas que considero altamente capacitados neste universo, para exporem a parte prática e teórica da captação de imagens, edição e finalização de um filmes de surf. São eles: Loic Wirth, Pablo Aguiar e Mark Daniel, além da assistência do videomaker Fabiano Sperotto, um dos organizadores do LSA.


 

Já publiquei aqui no Surf & Cult e em publicações especializadas algumas matérias sobre a produção audiovisual ligada ao surf e seus realizadores, como "Água Salgada nas Retinas" e "Um Novo Olhar" destacando o trabalho deste time de peso e seus antecessores que pavimentaram o caminho.

Assim, minha contribuição será oferecer um panorama sobre a produção de filmes de surfe ao longo do tempo, oferecendo uma reflexão crítica sobre o que se produz e quais objetivos são possíveis e interessantes de seguir. Neste sentido, explorar as formas de roteiro e conceituação de uma obra me parece um processo fundamental para que os participantes sejam estimulados encontrarem a "sua voz" e o "seu olhar” original dentro deste segmento - algo cada vez mais necessário em um mundo saturado de imagens e estímulos visuais.



É fato que hoje em dia é possível aprender quase tudo na vida assistindo a tutoriais na internet, e isso inclui a parte técnica de operação de câmeras, edição e tratamento de imagens. Então qual o sentido de realizar uma oficina como esta? A resposta resumida em uma palavra poderia ser: "Vivência", no sentido de oferecer a cada participante a oportunidade de conhecer de perto e ouvir as histórias de alguns profissionais consolidados na produção audiovisual de surf, além de fazer amizade com colegas com interesses afins em um ambiente inspirador como o espaço O Sítio, na Lagoa da Conceição.

Mas a vivência certamente fica muito mais rica quando inclui atividades práticas e interativas. Assim, a equipe aceitou o desafio proposto de proporcionar aos participantes uma experiência de criação audiovisual coletiva, desde a concepção do roteiro, passando pela captação de imagens de ação e todo o processo de montagem, edição e finalização do material. Tudo isso num espaço de três dias que prometem ser intensos para todos os envolvidos!


Mais informações: http://www.lagoasurfearte.com.br/oficina-cinema
Inscrições pelo email: oficinaslsa2016@gmail.com
foto de abertura: Gabriel Pesse



A Distante Espuma Branca

15 de agosto de 2016

 

Tudo começou na infância, com aquela fascinante e misteriosa espuminha branca, que vez por outra surgia no horizonte distante quando o mar estava revolto na praia de Jaguaruna. Com o passar dos anos, o mistério foi aos poucos se dissipando: a espuma era de uma onda que quebrava sobre uma laje, uma montanha submersa onde os pescadores em dias de calmaria capturavam toda sorte de pescados. "Mas será que dá pra surfar lá?" A pergunta ficou sem resposta até os anos 2000, com o surgimento dos jet-skis e os primeiros surfistas que começaram a desbravar a onda e a divulgar os primeiros registros.



Nesta época eu já estava envolvido com produção audiovisual e o meu desejo de conferir a onda de perto e registra-la em um documentário sobre a região começou a ganhar forma quando descobri em um livro que o Farol de Santa Marta emitia um feixe vermelho de luz avisando os navegadores a desviar da rota de colisão com a laje, então conhecida como Pedra do Campo Bom.



Conhecer a história do Farol e o seu funcionamento era também um desejo antigo e, a partir desta relação do Farol com a hoje famosa Laje da Jagua, vi que tinha em mãos um bom argumento para um roteiro que me permitiria registrar as paisagens deste litoral que faziam parte das minhas memórias afetivas de surfista. Surgia ali o nome "A Pedra e o Farol".



Mas foi somente quando comecei a pesquisar as fotografias antigas que registravam os naufrágios e encalhes na região de Jaguaruna que o roteiro ganhou verdadeira consistência, pois percebi que a história do pioneiro fotógrafo Gentil Reynaldo e a dificuldade que seus herdeiros encontram em preservar o acervo que ele deixou, funcionaria como um forte elemento poético simbolizando "a memória que inevitavelmente se perde no tempo", que ligaria toda a narrativa baseada na relação do homem com os registros que ele produz no lugar onde vive.

Assim, o roteiro do documentário "A Pedra e o Farol" virou um projeto aprovado na Lei Federal de Incentivo a Cultura e passei mais de um ano buscando os recursos mínimos necessários para que a produção saísse do papel. E foi então que, com apenas 25% do orçamento captados com a empresa GAM/Farol Shopping e a parceria de excelentes profissionais, iniciamos as filmagens pra valer em março de 2014, num processo de filmagem, edição e finalização que durou até abril de 2016 e exigiu altas doses de paciência e persistência.



Como em todo bom processo de produção, o filme foi ganhando vida própria, onde novos personagens e possibilidades foram surgindo, numa história contada a partir de depoimentos de dezenas de personagens. Olhando para trás nesta trajetória, o maior retorno pessoal certamente foi a oportunidade de poder conhecer melhor a região e seus habitantes, a partir de pessoas interessantes que se dedicam às mais diversas atividades dentro do território de Laguna e Jaguaruna.



Nesse contexto, percebi que não queria que este fosse um documentário puramente didático e histórico combinado com cenas de ação nas ondas. Partindo do principio de que os documentários são excelentes veículos para promover reflexões sobre temas relevantes, decidi buscar uma abordagem mais crítica sobre o processo de ocupação deste pedaço de litoral e os desafios encontrados para que ele não seja degradado pelo crescimento desordenado, onde as questões ambientais ganharam grande relevância na trama.



E eis que passados mais de três anos de dedicação ao projeto, o documentário finalmente estreou na última quinta-feira, com uma exibição para mais de 270 pessoas no histórico e belo Cine Teatro Mussi em Laguna, fruto de uma parceria com o Sesc Laguna. É difícil descrever a sensação de ver um ciclo se fechar com as imagens do filme sendo projetadas numa grande tela para um público formado por personagens do filme, integrantes da equipe e muitos curiosos - que puderam absorver uma história que passa na região onde vivem. Os aplausos ao final da sessão certamente inspiraram um sentimento de que a mensagem foi transmitida com sucesso.



Mas qual seria esta mensagem afinal? Na apresentação ao microfone antes da exibição fui tomado pelo nervosismo e diante daquela numerosa platéia não consegui elaborar bem sobre isso, então deixo aqui registrada a ideia central: O ponto de ligação entre os vários temas e personagens do filme é a percepção de que as coisas só passam a ter significado quando damos algum valor a elas, seja registrando momentos em fotografias, valorizando uma construção antiga ou lutando pela preservação de um ambiente natural.

 

Quanto a mim, a percepção pessoal é que de fato o tempo passou e a espuminha branca distante ficou mais próxima e menos misteriosa. Mas fica o entendimento de que os conhecimentos e sentimentos  que ela despertou ainda irão me gerar muitos frutos positivos ao longo do tempo.


Mais informações: www.apedraeofarol.blogspot.com
Frames e Fotos: Guilherme Reynaldo, Luciano Burin, Marcos BG, Marcos D'Elboux e Gentil Reynaldo 


Anos Coloridos

14 de junho de 2016





























Estréia nesta terça-feira (14 de junho) a série "80 e Tal", uma produção do Grupo Sal, dirigida por Rafael Mellin, na qual tive o prazer de realizar as entrevistas com os personagens que moram em Florianópolis e viveram intensamente a explosão do surf no litoral catarinense nesta época.

Seguindo a trilha do instigante resgate da história do surf no Brasil iniciado com a bem-sucedida série "70 & Tal", a nova produção se debruça nos coloridos anos 80, um período que marcou a consolidação do mercado de surfwear e a profissionalização do surf como esporte de competição no Brasil e no mundo - o que permitiu a uma legião de surfistas e entusiastas poderem realizar o sonho de viver financeiramente do universo das ondas.

Alguns ídolos da época



Ganhei minha primeira prancha de fibra em 84 e lembro bem do fascínio que sentia em folhear aquelas revistas de surf cheias de anúncios coloridos, de querer comprar aquelas bermudas curtas e com cores fluorescentes, que se espalhavam também em toda sorte de acessórios hoje sumidos, como biqueiras e luvinhas de surf. Numa época onde a informação começava a se difundir com mais facilidade, estes novos elementos de moda e comportamento (muitos deles que vistos hoje nos provocam risadas) eram incorporados de imediato pela juventude e forjavam uma sólida identidade cultural em torno do surf, que unia todos em seu entorno.

Inspirado nessa estética vibrante, a produção procurou recriar a atmosfera e as referências dos anos 80 em cenas de ação e "estilo de vida" característicos da cultura de praia da época, com surfistas atuais surfando pelos picos mais relevantes dos anos 80, embalados pelas trilhas sonoras e grafismos da época, e munidos de toda a indumentária de pranchas e acessórios que marcaram o período. Esta estética também se reproduziu nas gravações em estúdio, com panos de cores fluorescentes compondo o cenário de fundo.



A escolha dos personagens do sul girou em torno de algumas figuras que já havia entrevistado na produção  do documentário "Pegadas Salgadas", como Fabio Gouveia, Avelino Bastos, Zeno Brito, Flavio Vidigal, Basilio Ruy, Maurio Borges e Bira Schauffert, além de nomes fundamentais que tive a oportunidade conhecer, como Renato Hickel, Flavio Boabaid, David Husadel, Netão e Roberto Lima, cujos depoimentos ajudaram a reconstruir o rico imaginário que fez dos anos 80 um período tão icônico e influente até os dias atuais.

Na pauta, as curiosidades e os caminhos que levaram Floripa a ser reconhecida como a capital do surf no Brasil a partir da segunda metade dos anos 80. Um contexto que envolve os bastidores da consolidação do surf profissional brasileiro e a realização dos icônicos campeonatos nacionais na Joaquina, como Op Pro e o evento mundial Hang Loose 1986, verdadeiro marco histórico do surf nacional.



A talentosa equipe das entrevistas em Floripa, cujas gravações ocorreram há cerca de um ano, contou com o cinegrafista Daniel Leite da Silva, auxiliado por Robson Dias e a produtora Naná Marcondes (na foto com Fabio Gouveia e Renato Hickel). Além de nós, dezenas de outros profissionais estiveram envolvidos na produção da série 80 e Tal, cujo resultado poderá ser conferido em 13 episódios que irão ao ar toda terça às  22:30hs no Canal Off.




Confira um clipe de ação do programa:  http://canaloff.globo.com/programas/80-e-tal/videos/5089731.html










Consolo na Praia

21 de março de 2016





Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
 
Carlos Drummond de Andrade 
ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.


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