Consolo na Praia

21 de março de 2016





Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
 
Carlos Drummond de Andrade 
ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.


Paisagens Afetivas

18 de fevereiro de 2016



Embora o documentário longa-metragem "A Pedra e o Farol" não seja um filme de surf no sentido mais estrito do gênero, já que o mundo das ondas é apenas um dos muitos elementos da narrativa, decidi lançar este teaser com um clipe de surf extraído do filme para celebrar as lembranças afetivas que tenho guardadas das primeiras expedições de surf que realizei ainda garoto ao Farol de Santa Marta.



Ele se propõe a tentar revelar na tela a magia das antigas surf trips ao Farol e toda a beleza plástica do surf e de como esse poderoso conceito libertário das expedições (surfaris) em busca de ondas solitárias fez deste local uma referencia e destino turístico de aventura, impulsionado por suas ondas e paisagens singulares.



O conteúdo foi captado no outono de 2014, quando reuni o talentoso cinegrafista de surf Pietro França, com o surfista "mestre do estilo" Fabio Gouveia, para juntos desbravarmos durante dois dias as praias do Farol de Santa Marta. Além deles, participaram da barca alguns amigos locais como Marcos May Cabral e Thiago Jacaré, além do cinegrafista Antonio Zanella e seus irmãos Gustavo e Guilherme.


 
Mais que a busca por alta performance em cenas de ação, o casamento de imagens e trilha sonora original foi pensado numa estética poética, a partir de minhas lembranças pessoais mais remotas das paisagens e sentimentos que para mim, até hoje, traduzem a essência do surf: acordar com o sol nascendo, cruzar estradas rurais enlameadas, atolar nas dunas e chegar num paraíso de ondas vazias, ventos intensos e uma paisagem desolada e inspiradora. Um resgate de tempos idílicos que reverberam pelo tempo, de cair na estrada e passar o dia na praia com os amigos, onde a única preocupação era encontrar uma onda boa para surfar e se divertir.


Dentro da estética tradicional dos filmes de surf, este clipe é a única concessão à ação em "slow motion" dentro do documentário, brincando com a ilusão criada pelo surf e toda a sua plasticidade, que fica bem mais impactante em câmera lenta (e que por isso é explorada em quase 100% nas produções de surf atuais).


Vale ressaltar que a temática da narrativa de A Pedra e o Farol perpassa a questão da memória e de como lidamos com as paisagens e os registros que guardamos como parte importante de nossas vidas. Assim, o clipe busca ressaltar estes elementos, no intuito de fazer o espectador resgatar as suas próprias lembranças de paisagens afetivas, que nos fazem viajar no tempo através de imagens que muitas vezes ficaram guardadas apenas em nossas lembranças pessoais.


O documentário A Pedra e o Farol será lançado no primeiro semestre de 2016
Mais informações: www.apedraeofarol.blogspot.com



Sujeito Composto

10 de dezembro de 2015


Um dos mais inventivos shapers do Brasil, Jair Fernandes, o "Machucho", completa quatro décadas de experiências no desenvolvimento de novas formas de fabricar pranchas de surf.

Esta é a abertura da matéria 12 páginas que produzi para a edição de novembro da revista Fluir onde busco repassar a trajetória de um dos mais inovadores e produtivos shapers do Brasil.  Pessoalmente, este trabalho teve um valor sentimental especial, pelo fato de que a primeira prancha de fibra que experimentei na vida foi uma Machucho azul 6,6 singlefin emprestada de um primo no distante verão de 1984 em Jaguaruna. Dalí pra frente, o surf mudaria a minha vida de maneira significativa e o nome Machucho sempre me transporta para esta descoberta mágica.

Machucho testando suas criações nos anos 80

Mas foi só muito tempo depois, em 2011, que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o shaper que marcou época como pioneiro na fabricação de pranchas no sul de Santa Catarina ainda em meados dos anos 70. A entrevista para o documentário Pegadas Salgadas, realizada em sua casa na Lagoa da Conceição em Floripa, foi tão interessante que estendemos a visita para a sua oficina/laboratório, de onde sai com a certeza de que a história de Machucho merecia ser contada com mais profundidade para que ele recebesse o devido reconhecimento por suas criações.

As divertidas cabanas térmicas hoje compõem o jardim da casa de Jair

O tempo foi passando e, depois de alguns encontros entre 2013 e 2015, finalmente a oportunidade de publicar o texto se materializou. Neste meio tempo, Jair deixou de lado as divertidas cabanas-iglu em forma de monstro feitas com jato de spray de poliuretano que andava produzindo, e voltou com carga total à fabricação de SUPs e pranchinhas de alta durabilidade e leveza, graças aos processos singulares de prensa e termomoldagem que ele desenvolveu.

O grande desafio do texto foi justamente tentar traduzir em linguagem leve e acessível os diversos processos produtivos criados e desenvolvidos por Jair nas últimas quatro décadas em sua incessante busca por novas formas de fabricar pranchas, experimentando com os mais diversos materiais, compostos químicos e metodologias - onde muitas vezes teve que desenvolver maquinário próprio para poder realizar o que desejava alcançar.

As pranchas de SUP com laminação plástica são a nova aposta de Jair
 
Por trás de toda a complicada terminologia técnica associada ao seu trabalho, fica a imagem de um homem simples, de fala mansa, que contribuiu de forma silenciosa, porém significativa para a evolução do surf, uma atividade que ele ainda pratica diariamente e que o mantém em grande forma aos 62 anos de idade.

Vale destacar também as fotos do amigo Rafael Ribeiro, somadas às imagens de acervo da família, que ajudaram a ilustrar o texto com alta qualidade, como esta foto de abertura da matéria, onde juntamos algumas das criações mais significativas do shaper- inventor que já foi chamado (com razão) de "Professor Pardal" do surf.




Fia e os Foguetes

20 de novembro de 2015



Foi com alegria que no final de setembro passado recebi o convite do editor Adrian Kojin para colaborar com o novo projeto gráfico e de conteúdo da revista Fluir, publicação a qual ele retornava depois de comandar por três anos o projeto de publicar a edição brasileira da icônica The Surfer's Journal.

Se o fechamento da TSJ Brasil foi uma ducha de água fria em minha esperança de mantermos por aqui um veículo que valoriza pra valer a produção de textos jornalísticos ligados ao surf, por outro lado foi uma grata surpresa saber que a Fluir, a mais antiga e tradicional revista de surf do Brasil, queria dar uma guinada em sua linha editorial e valorizar justamente a produção de um conteúdo impresso com mais profundidade e consistência.



Convite aceito de imediato, a primeira pauta sugerida por Adrian para esta minha nova jornada como colaborador da Fluir me deu a chance de voltar a conversar longamente com um ídolo de infância (e que hoje posso chamar de amigo) Fabio Gouveia para produzir um perfil focado na sua nova e bem-sucedida faceta de shaper.

Sou suspeito para falar da qualidade e da versatilidade do trabalho de Fabinho como shaper, pois já tenho no meu quiver duas ótimas pranchas feitas por ele. Em meio a muitas risadas, informações técnicas, e uma sessão de fotos na sala de shape que fica no quintal de sua casa, o mestre Fia contou os bastidores e os detalhes desta sua outra faceta dentro do surf. Um relato que ganhou vida em uma matéria de doze páginas batizada de "Shapes Fabulosos", publicada na edição especial de 32 anos da Fluir, que marca esta nova fase da revista.

Reproduzo então a abertura da matéria divulgada no site da revista que segue nas bancas até o fim do mês: "Os primeiros shapes feitos por Fabio Gouveia foram pranchas em miniatura que ele fabricava em seu quarto, em João Pessoa, na Paraíba, ainda moleque, bem antes de sair pelo mundo conquistando títulos inéditos para o Brasil. Durante os anos em que Fabuloso foi o mais bem-sucedido surfista profissional brasileiro, não sobrava muito tempo, mas ao se aposentar das competições ele pôde retomar o ofício pelo qual sempre teve enorme fascínio. E aqueles chaveirinhos se transformaram em pranchas maravilhosas."



























A edição traz também uma homenagem a outro ícone do surf brasileiro: o empresário e escritor Sidão Tenucci, fundador da OP Brasil, recém-falecido aos 61 anos, com a reprodução de trechos de uma inspiradora entrevista que fiz com ele em 2010. Aloha Sidão e obrigado Fluir!

Entre o Céu e o Mar

16 de outubro de 2015



Quando lancei o trailer do documentário A Pedra e o Farol recebi nos comentários do Facebook o link para um curta-metragem chamado Cabo Polônio - Entre o Céu e o Mar do fotógrafo uruguaio Gabriel Varalla, vulgo "Guel", com o seguinte comentário: "Deixo aqui o link para um filhote meu, já algo velho e não é de surfe... mas é parente por parte de farol e naufrágios".

Conheci o Guel num curso de fotografia de surf em Floripa com o Sebastian Rojas da revista Fluir em 2010. Da galera que fez o curso ele mostrou-se o mais dedicado e desde então venho acompanhando a sua prolífica trajetória como fotógrafo aquático, primeiro em Garopaba e hoje em Floripa, onde Guel é uma figura querida e conhecida dos surfistas, marcando presença quase diária no lineup do Campeche - onde faz fotos da galera e luta para conseguir o merecido retorno financeiro pela sua produção fotográfica.




Fui surpreendido pela faceta cineasta de Guel e seu documentário poético rodado em película 35mm em preto e branco e lançado no distante ano de 1998, com recursos do Prêmio Estímulo 1996 (SP), produzido junto com a diretora de fotografia Andréa Scansani. "Foi uma bela loucura, rodado em 3 pra 1", explica Guel, que passou algumas semanas na icônica e isolada comunidade pesqueira no litoral uruguaio e enfrentou as contingências de se filmar em película com baixo orçamento.




De imediato senti uma conexão muito forte com o curta Cabo Polonio e a ideia artística que sempre tive para o documentário A Pedra e o Farol, na proposta de mostrar a fragilidade humana perante as forças maiores da natureza. Um contexto também explorado por Guel ao enfatizar elementos como a solidão e a aridez da paisagem, os ciclos do tempo evidenciados pelos pujantes movimentos da natureza local e a maravilhosa trilha sonora contemplativa de Daniel Viglietti, que são trabalhados de modo a criar um atmosfera onírica e atemporal.

O resultado é uma narrativa simples e ao mesmo tempo profunda, que ganha ainda mais força dramática com a estética do preto e branco e os cenários descampados do Cabo Polônio - que guardam semelhanças e se revelam ainda mais desolados quando comparados aos cenários do Cabo de Santa Marta, onde rodei A Pedra e o Farol.



"Estreamos o filme no próprio Cabo Polonio, para a população de residentes, pescadores e suas famílias, os protagonistas. Depois passou no festival de curtas em SP, festival de Curitiba, com prêmios de melhor doc e melhor fotografia; selecionado para La Havana e no festival de Montevidéu", conta Guel, que me prometeu publicar uma nova versão com legendas em português.  "Botamos grana em cima e contamos com muitas colaborações para torná-lo viável... é filho único e muito amado", completa Guel sobre não ter produzido mais obras audiovisuais depois dessa.



Frente a sintonia entre os dois trabalhos e as paisagens documentadas, respondi a Guel que Cabo Polonio é mesmo um filme irmão de A Pedra e o Farol e que a oportunidade de assistir a esta obra, mesmo já estando no processo adiantado de edição do meu documentário, serviu de grande inspiração para buscar me aprofundar ainda mais neste tipo de experiência sensorial que ele alcançou em seu filme.

crédito: Ricardo de Jesus
    

confira aqui mais um pouco do trabalho do Guel
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