O Poder de Uma Grande Ideia

13 de junho de 2017



Como medir o poder de uma grande ideia? Certamente uma das formas é examinar legado que ela deixou, seu alcance, longevidade e influência. No nível pessoal de seu criador, a grande ideia é aquela que ficará eternamente associada ao nome desta pessoa e irá marcar um mudança paradigmática em sua existência.

John Severson, artista pioneiro

Sim, a grande ideia só é de fato uma grande ideia se for colocada em prática. Posso afirmar com certa segurança que todo mundo algum dia na vida já teve uma tal "grande ideia". Aquela sacada genial, que depois se provou mal sucedida em alguma medida por toda sorte de razões, ou simplesmente não vingou por nunca ter saído do papel. Pior ainda, aquela ideia brilhante que veio e se foi com a mesma velocidade, surgida de um devaneio mental e perdida pela falta de registro no momento em que veio a tona.

Jack O'Neill e o produto que mudou sua vida

Fiquei pensando nisso nos últimos dias quando o mundo do surf perdeu dois ícones reconhecidos por mudarem a história do esporte a partir de uma grande ideia. John Severson criador da Surfer, a primeira grande revista de surf e Jack O’Neill, pioneiro e principal difusor da roupa de borracha.

Destaco aqui o uso da expressão “primeira grande”, pois, como em toda ideia inovadora, existem sempre as controvérsias sobre o real pioneirismo na autoria e singularidade criativa. Os casos aqui tratados não diferem disso e, pesquisando um pouco, constatamos que de fato existiram outras revistas na mesma época que Severson lançou a Surfer, assim como a tecnologia do neoprene para roupas de borracha para o surf já estava sendo experimentada por outros fabricantes quando O'Neill lançou o seu produto.



Mas dentro do chamado "espirito do tempo", estes foram os homens que conseguiram levar adiante com maior sucesso as ideias que estavam latentes e as transformaram em um meio de vida. De quebra, a partir da Califórnia, eles consolidaram a cultura do surf como esporte e criaram mercados que permitiram que muitas outras pessoas pudessem realizar o sonho de viver profissionalmente em torno do surf.   

No caso de Severson, então atuando como um dos primeiros cinegrafistas de surf, a criação da revista Surfer surgiu como uma ferramenta de suporte para os seus filmes e logo ganhou vida própria, consolidando em meados nos anos 60 um canal de comunicação que possibilitou a criação da indústria dos surf - no elo completo entre os surfistas (atletas), os fabricantes de equipamentos de surf (marcas), os fotógrafos e jornalistas de surf e os leitores (público consumidor).



Já para Jack O`Neill, a sacada foi simplesmente criar um produto funcional para resolver o maior dilema dos surfistas de sua região até então: como conseguir ficar mais tempo surfando nas geladas águas do Pacífico? E assim como todo grande produto, a roupa de borracha surgiu como a solução para uma grande necessidade.

Um sucesso imediato, que perdura até hoje e segue em constante evolução. "Eu queria fabricar alguma coisa que me permitisse surfar por mais tempo", sintetizou Jack. E na esteira desse produto inovador, O'Neill criou um mercado para acessórios ligados ao surf no inicio dos anos 50, quando registrou o termo "surf shop", que até hoje designa este segmento de lojas especializadas.

Jack e seu primeiro colete O'Neill

E se as "surf shops" ainda existem mundo afora em boa quantidade, o mesmo não pode ser dito das revistas de surf. As publicações impressas de surf seguiram firmes até a virada do século XXI, passando a ser lentamente engolidas pelas novas mídias digitais. Fato é que as revistas de surf perderam a sua magia como catalisadoras culturais e objeto de desejo dos surfistas sedentos por informações - embora a Surfer ainda resista bravamente como uma das últimas e relevantes publicações de surf.



E aqui podemos apontar uma diferença básica na relação de ambos os criadores com suas grandes ideias. Por um lado, Severson, que faleceu aos 83 anos, se desapegou de sua grande ideia para se dedicar à sua paixão mais intensa: a criação artística. Assim, pouco mais de uma década depois de criar a Surfer em 1960 e transformar para sempre o mercado do surf, ele vendeu a revista e se mandou para a o Hawaii, passando a viver de suas belas pinturas sobre o universo do surf (que ilustram esta matéria) e desfrutando de uma tranquila e precoce aposentadoria.



No caso de O’Neill, que se foi com 94 anos, ele seguiu em frente como fabricante de roupas de borracha e sua marca segue firme até hoje como uma das líderes de mercado, administrada por seus herdeiros. Diferenças a parte, Jack O’Neill, com sua clássica figura de pirata com um tampão no esquerdo (fruto de um acidente surfando), e John Severson, o talentoso artista de sorriso fácil, serão eternamente e lembrados como dois pioneiros que fizeram a diferença no mundo do surf por conta do impacto gerado por suas grandes ideias.



Num singelo e divertido discurso para agradecer a homenagem que recebeu da própria revista Surfer em 2011 (video acima), Severson, do alto de sua humildade, fez graça sobre o possível legado que sua grande ideia deixou. Disse ele que certo dia esbarrou com um camarada que o abordou na rua "com a blusa rasgada, cabelos desgrenhados, alguns dentes faltando e um olhar alucinado" e lhe disse: "Você e a Surfer mudaram a minha vida!". Em meio aos risos da platéia, ele finalizou dizendo que pelo menos o sujeito "estava vivo e empolgado!". 


A frieza das estatísticas mostram que poucos serão os afortunados a ter o privilégio de por em prática alguma ideia de impacto que irá transformar o mundo de maneira positiva. Mas quero crer que, ao longo da vida, todo mundo tem o poder de ter  as suas "pequenas grandes ideias, que transformem o seu próprio mundo para melhor. De minha parte, posso afirmar que a criação do Surf & Cult em 2009 foi uma dessas "pequenas grandes ideias" que até hoje me impulsionam de maneira positiva e fazem a diferença em minha vida.



5 Pra 1: Nuno Miguel

22 de maio de 2017




Conheci o filmmaker português Nuno Miguel em 2012, trabalhando atrás do balcão de uma surf shop na Costa da Caparica, seu pico local nos arredores de Lisboa. "Este é o gajo que aparece nos teasers do festival", assim me apresentou a Nuno na ocasião o amigo Ricardo Gonçalves, idealizador do festival SAL (Surf At Lisbon) e meu anfitrião em Portugal.

Desde então, venho acompanhando com curiosidade e satisfação a entrada e a evolução de Nuno no mundo audiovisual, com a criação da Joyfaktor, onde passou a filmar e editar diversos conteúdos de surf, firmando-se como um dos mais talentosos e dedicados divulgadores do imenso potencial de surf da costa portuguesa. Hoje, aos 27 anos, diante das dificuldades em viver somente da produção de filmes de surf,  Nuno vem diversificando a sua atuação, produzindo também vídeos de casamento, moda e outros esportes, mas sem nunca abandonar a veia salgada.



Em meio a uma maratona de diárias de gravação de clipes musicais, Nuno concedeu a seguinte entrevista ao Surf & Cult:

1 - Como se iniciou a tua relação como surf e com as produções audiovisuais? O que mais te motiva nesse universo?

Já faço surf desde os meus 12 anos, mas até aos 15 anos a minha mãe só me deixava ir ao fim-de-semana quando ela ia para a praia no verão. Em 2012 fui convidado para aparecer nos teasers do SAL (Surf at Lisbon Film Fest), nunca tinha tido experiências com o mundo video, apesar de adorar ver filmes de surf a toda a hora!



Desde aí o bichinho mordeu a sério e comprei a minha primeira câmera dslr (uma miséria! haha) e comecei a filmar uns amigos por diversão. A diversão tornou-se um hobbie a sério, e o hobbie a sério com a idade a aumentar tornou-se o meu trabalho 365 dias por ano basicamente. Motiva-me trabalhar com pessoas alegres e sem egos, motiva-me trabalhar com pessoas que temos como ídolos ou por exemplo no mundo do surf os nossos surfistas favoritos.




2 - Fale um pouco sobre a criação da JoyFaktor e os teus trabalhos autorias e colaborativos dentro e fora do surf.

A JoyFaktor começou no final de 2012, como referi antes como um hobbie que hoje em dia é o meu trabalho 365 dias por ano. Não quis dar um nome comun/básico como Nuno Miguel Video ou coisa do gênero e então ficou a JoyFaktor, talvez porque é um trabalho que me dá imenso prazer (Joy) fazer.

Quanto a trabalhos e colaborações tive o prazer de trabalhar duas vezes com o fotografo Tom Carey e dois grupos de surfistas (em anos diferentes) que são dos meus favoritos.

Ultimamente tenho desligado um pouco do mundo do surf, infelizmente em Portugal a indústria é fraca para se puder viver de filmar surfistas e tenho feito outros tipos de trabalhos, bem diferentes do surf e um pouco longe da areia e da água salgada.




3 - Como enxergas a evolução do surf e das produções audiovisuais ligadas ao tema em Portugal nos últimos anos? Nesse contexto, como comparas a cena portuguesa com o que vem de fora?

Sinceramente? Fraca! Em Portugal há ondas incríveis, cenários lindos e um clima de invejar muitos outros países, temos uma arquitetura brutal e uma luz matinal "linda de morrer", pena que ninguém aproveite o bonito que o nosso Portugal é e não saiam da caixa. Demasiado "surfporn" e as produções que vão saindo as vezes nem 5 minutos de video têm e demoraram 1 ano ou mais a serem feitas.

 

4 - Quais as tuas maiores inspirações e referências no surf e nas artes?

Surf nacional, talvez o Frederico Morais, power surf no seu melhor e claro, o nosso representante no world tour, apesar que não gosto de competição no surf. Surf internacional, Jay Davies, tem sempre altos videos e um surf power e progressivo ao mesmo tempo.

Artes, hum... dificil... Nacional talvez o Gustavo Imigrante, gosto bastante da visão dele! Internacional, sem dúvida Kai Neville mas tenho mais, Mike Pagan, Ty Evans, Sam Moody (com quem já filmei também) e há mais, claro.




5 - Se te oferecessem uma verba ilimitada para produzir algum projeto ligado ao surf e às artes o que você faria? 

Txiiiiiiiiiiiiiii... 1 ano para cada país, 2 surfistas ou 3 apenas, muita cultura, muita arquitetura, muitas ondas, climas tropicais e não só e claro... banda sonora de bandas de cada país em que filmasse, o mais importante para mim, boa musica!

Além de filmar dentro e fora d`água, Nuno agora também faz aéreas 


Crédito das imagens: acervo pessoal Nuno Miguel


Êxtase e Pânico

10 de maio de 2017


Laje da Jagua de novo?! Você não cansa de ficar postando imagens e relatos dessa onda em alto mar? Será que já não foram divulgados vídeos, fotos e relatos suficientes sobre esta sessão em particular? Resposta: Talvez, mas preciso registrar também!

Fico pensando que até quem é bastante ligado em surf fica meio de saco cheio com esta profusão de imagens de uma sessão de surf da qual a pessoa não participou. O hábito de postar fotos pessoais na internet pode mesmo ser considerado como puro exibicionismo, tão comum nessa era de relacionamentos digitais, onde as aparências de uma vida a ser invejada definem se uma pessoa é ou não bem sucedida na vida.



Mas quero crer que o desejo que move a mim e aos outros surfistas que divulgaram estas imagens é a vontade incontrolável de compartilhar a emoção vivida, de modo a reviver e fazer perdurar momentos intensos.

Assim, publico aqui um material do último dia 28 de abril, que reservou mais um daqueles dias que por muito tempo ficam ecoando na memória. Foi o dia em que a Laje da Jagua "quebrou de jeito", onde todos os elementos se alinharam e eu, junto com mais uns vinte surfistas experimentamos o poder dessa onda oceânica em toda a sua magnitude. Foi o "dia épico" que esperei filmar sem sucesso, durante os dois anos em que produzi meu documentário sobre o pico.

Tissot e Capilé aceleram em meio à força descomunal da espuma da laje

Esquerdas grandes, lisas e constantes. 10, 12, 15 pés?! No aprendizado constante vivenciado a cada  sessão na Laje, desta vez eu pude testar novos limites físicos e mentais, seja no fato de provavelmente  ter dropado a maior onda que já surfei no litoral brasileiro (certamente a mais forte), como na experiência de ser varrido por uma das maiores séries do dia, quando tive que enfrentar o pior pesadelo de um surfista num dia de ondas grandes.



Minha única e inesquecível onda em três tempos

Do êxtase ao pânico, foram muitos momentos marcantes no meio de tudo isso. Da confraternização na lancha, acompanhando o trabalho do filmmaker Bruno Tessari e dos fotógrafos RafaShot e Luis Reis, ao foco máximo no posicionamento no lineup junto a grandes surfistas profissionais como Fabio Gouveia, Paulo Moura e MarcoPolo Soares, além dos "suspeitos de sempre" Thiago Jacaré, Fabiano Tissot, João Baiuka, João Capilé, Luiz Casagrande e André Paulista, os assíduos Arno "Bufalo" Philippi, Marquito Moares, Fabio Mia e mais uma penca de surfistas amantes do big surf.

 
O incansável João Baiuka mostrou preparo físico invejável e acumulou o maior numero de ondas surfadas

O guardião da laje Thiago Jacaré, comandou as ações como de costume

São muitos os perigos, muita coisa que pode dar errada, ainda mais em um lineup cheio como neste dia. De minha parte, em uma hora de sessão meu destino já estava selado: começou com um drop inesquecível numa das primeiras séries do dia. Depois, o primeiro susto com uma pranchada no quadril vinda do enorme SUP do Tissot, que teve que ejetar o drop para a passagem de João Capilé que vinha acelerado no tow-in.

Paulo Moura adicionou altas doses de talento e experiência ao lineup

MarcoPolo demorou a se soltar, mas quando o fez, foi com muito estilo

Poucos minutos depois, o preço alto de se encontrar mal posicionado para a maior série do dia até então, que entrou mais funda que as outras ondas e colocou a turma para remar pela vida em direção ao horizonte. Jamais esquecerei da imagem daquela parede interminável de espuma se projetando inteira a poucos palmos do meu nariz. "O que estou fazendo aqui?!" é o questionamento inútil e inevitável. Não havia muito o que fazer: era largar a prancha, pegar a maior reserva de ar possível, afundar o corpo e encarar a sessão de "lavanderia" com o maior relaxamento corporal e mental possível.

Fabiano Tissot na possível maior onda do dia, certamente a maior que ele já surfou na laje

A chacoalhada foi forte e longa. Fui projetado bem pro fundo do mar, mas por sorte não toquei o fundo de pedra e o colete de flutuação fez a sua função de me trazer de volta com mais agilidade à superfície. Quando voltei a tona, estava inevitavelmente tenso com a experiência e os segundos preciosos perdidos até ser avistado pelo jetski de resgate, fez com que eu tivesse que encarar as outras ondas da série que vinham atrás.

"Não dá tempo. Vai ter que encarar mais duas!", passou gritando por mim Carlos Piri pilotando o jetski.  Essa perspectiva me deixou bastante preocupado, pois já não me sentia fisicamente preparado para mais esse desafio devido ao desgaste extremo da primeira onda na cabeça. No fim, sobrevivi à surra, sendo carregado até o canal pela força bruta das ondas, mas não tinha mais condições físicas de voltar ao lineup.

André Paulista conhece bem o caminho na laje

Do êxtase ao pânico, foram muitos momentos marcantes no longo dia em alto mar. Da confraternização na lancha, acompanhando o trabalho do filmmaker e amigo Bruno Tessari, que estava gravando um programa pro Canal OFF (e fez o video que ilustra esta matéria) e dos fotógrafos RafaShot e Luis Reis, ao foco máximo no posicionamento no lineup junto a surfistas experientes nestas condições, onde a correnteza insistia em nos carregar perigosamente para o norte, onde a turma do tow-in encarava algumas das temidas direitas na cabeça da laje.



Fiquei especialmente feliz em ver o mestre e amigo Fia Gouveia colher os frutos das muitas investidas que fizemos juntos à laje, principalmente porque ele quase não veio desta vez (ia se arrepender!), mas não resistiu à tentação quando fui até a sua casa pegar a 9'6'' que ele me emprestou para a session. A recompensa se materializou em algumas das melhores ondas do dia, surfadas de maneira impecável. "Finalmente!", ele bradou com um sorriso de orelha a orelha.

O mestre Fabio Gouveia mostrou seu estilo habitual e não errou nenhum drop em muitas ondas surfadas

Após algumas horas acompanhando o show de surf em ondas constantes, não resisti e resolvi fazer mais uma investida na remada, contrariando os avisos do meu corpo moído pela surra matinal. E assim, tive mais um aprendizado: ao hesitar na remada e puxar o bico numa bomba perfeita, percebi que não deveria estender os meus limites além do que já havia feito. Meu instinto me alertou que eu não poderia me dar ao luxo de errar um drop e ter que encarar mais um caldo daqueles. Assim, retornei para a lancha, não sem antes ter que largar a prancha em mais uma série deslocada que quase me pegou. Estava de bom tamanho!

Fabio Mia colheu os frutos de várias investidas na laje

O espírito coletivo de uma expedição à laje é algo único no surf e que contagia a todos que participam. Mas o desafio da conquista e da superação pessoal de nada valeria se não voltássemos a terra firme sem maiores incidentes além das inevitáveis pranchas quebradas.

Eu e Fia prestes a embarcar em mais uma expedição na laje

Fotos: Luis Reis e RafaShot. Abertura: Fabio Gouveia na foto mais icônica da session.



5 Pra 1: Bruno Tessari

25 de abril de 2017


Quem assiste às séries de surf na tv certamente conhece o nome Bruno Tessari. Criado nas ondas e na vontade de registrar de imagens junto com a talentosa turma de Balneário Camboriú (SC), Tessari construiu uma sólida carreira filmando e editando diversas produções do Grupo Sal para o Canal OFF nos últimos anos - como as séries "Diário das Ilhas", "Brazilian Storm", "Hidrodinâmica" e "9 Pés" -, além de realizar trabalhos de publicidade para marcas como Red Bull e Nike.



Com seu jeito simples, fala mansa e humor afiado, somado ao seu talento por trás das lentes, Tessari conquistou a amizade e a confiança dos principais surfistas profissionais do Brasil, e nos últimos anos vem produzindo uma série de perfis com esses atletas. O resultado desse trabalho se revela em curta-metragens que invariavelmente reúnem alta qualidade de fotografia com ótimas trilhas sonoras - fruto do seu conhecimento e paixão pela música. Em meio às constantes viagens e gravações, ele concedeu a seguinte entrevista ao Surf & Cult:




1 - Como se desenvolveu a tua relação com o surf e as artes e como você enxerga a ligação entre estas atividades?

Meu trabalho está diretamente relacionado ao surf. Comecei quando tínhamos aquela vontade de se ver surfando, então na época eu, Pablo AguiarMickey Bernardoni e Alan Fendrich vivíamos indo à praia com uma handcam + tripé dos mais simples possíveis, só para quebrar o galho mesmo. Era pura curtição. Com o tempo comecei a filmar os campeonatos locais, depois vieram os atletas e as marcas.




2 - Teus projetos mais recentes tem girado em torno de curta-metragens que trazem perfis individuais de surfistas profissionais. Conta um pouco sobre a produção destes trabalhos, a tua abordagem pessoal, o processo criativo e o grau de envolvimento dos surfistas na escolha do conteúdo?

Sim, os trabalhos que mais gosto de fazer são os curtas. Curto vivenciar e contar a história desses caras, alguns tem muito conteúdo fora do surf , muita história pra chegar até onde chegaram.
Tento passar pelo menos uns 20 dias com o personagem, isso direto sem pausa, assim consigo prestar atenção nos detalhes, manias e hobbys, e fica mais fácil pra coisa acontecer, pro cara se soltar e esquecer que ali tem uma câmera.
A trilha sonora pra mim é sempre 50% do filme, sempre fui muito ligado à música, tive banda por muitos anos e até hoje faço som todos os dias, então tento ver a pegada do atleta, e fazer o som encaixar no estilo do próprio.




3 - Como você enxerga a evolução das séries de TV e do material web ligado ao surf que vem sendo produzido no Brasil e no mundo? O que te chama atenção em termos positivos e negativos?

Hoje acho que a única emissora que está pagando pelas produções no Brasil é o OFF, então não tem muito pra onde correr em se tratando de TV.
A web cresce muito. Acho que esses Netflix da vida podem ser uma boa saída. O surf cresceu muito por aqui mas quem está ganhando "dim dim" mesmo é o Medina (risos).





4 - Cite algumas das tuas principais inspirações no universo das artes, dentro e fora do surf?
 
No surf , o Taylor Steele, desde que assisti ao Momentum 1 não deixei nenhum de seus filmes passarem em branco, Hoje tem o Joe G que faz filmes bem legais também. Fora do surf, tem os diretores de fotografia César Charlone e Matthew Libatique que fizeram a fotografia de alguns dos filmes que mais gosto.
 




5 - Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho artístico ligado ao surf o que você faria?  

Com certeza chamaria alguns amigos filmmakers pra aproveitar isso junto, e tentaria explorar alguma onda nunca filmada e colocaria pelo menos uns 10 dos melhores e ao final da produção todos os filmmakers teriam direito a um mês só surfando sem carregar uma pelican (risos).
Acho que contrataria alguém do tipo Metallica pra produzir a trilha, você falou verba ilimitada! (risos). Ah, detalhe que eu peguei onda com eles em Sunset. Fui obrigado a tietar na água!

Bruno Tessari: Filmmaker, surfista e "metaleiro"!, foto: Marcelo Araújo

Confira outros trabalhos do Bruno Tessari em seu canal no Vimeo



Novas Experiências

3 de abril de 2017


Dizem que um dos segredos para manter-se motivado na vida é viver novas experiências, buscar sempre fazer alguma coisa pela primeira vez. Mantras de auto-ajuda a parte, não poderia deixar passar em branco o último dia 20 de março, que marcou um desses momentos inéditos, quando pude pela primeira vez surfar uma onda na Laje da Jagua, no litoral sul de Santa Catarina.

Fabiano Tissot numa linda esquerda

Quem acompanha este blog com alguma frequencia certamente já leu a respeito da relação de fascínio que tenho desde a infância com esta onda perdida em alto mar, distante 5 quilômetros da costa da praia de Jaguaruna, local frequento desde que nasci. Desde 2014 tenho participado de algumas expedições ao pico, no intuito de registrar imagens das ondas da laje para o documentário A Pedra e o Farol, e agora com as gravações encerradas, pude finalmente viver a emoção de deixar a câmera de lado e me dedicar a tentar surfar a onda.

Fabio Gouveia na sua primeira onda 'pra valer' na laje

Quem nunca esteve no pico e apenas analisa os registros das imagens divulgadas com grande frequencia e dedicação pela turma da Atow-inj, pode ter a impressão de que a onda é ruim, fraca e facilmente surfada. Para quem pensa assim, acho válida a leitura do relato completo desta última expedição, que foi narrada com riqueza de detalhes pelo mestre Fabio Gouveia em sua coluna no Waves.

A exemplo de Fia, muitos grandes surfistas que já passaram pelo pico, como Carlos Burle, Rodrigo Resende e Danilo Couto - só para citar os big riders mais respeitados do Brasil -, já falaram com respeito e admiração sobre esta onda que começou a ser surfada de tow-in em 2002 e posteriormente foi encarada na remada.

Fia e seu estilo único

Quem já participou de alguma barca para a Laje sabe dos desafios de logística e habilidades exigidos para o sucesso da empreitada. Desde a organização dos jets, pranchas, coletes e equipamentos de filmagem para formar a barca e, depois, o grande desafio de varar a intensa rebentação de mar aberto da praia da Jagua transportando toda a turma para o outside. Nas últimas expedições temos contado ainda com o auxílio de uma lancha, que se desloca da Barra de Laguna até o outside da Jagua - uma viagem de mais de uma hora - e proporciona mais segurança e a possibilidade de transportar mais pranchas e equipamentos até o pico.

Jacaré numa das melhores do dia (e eu tentando furar a placa)

Vale ressaltar que o que mais impressiona na onda da Laje da Jagua não é propriamente o tamanho da onda em si, mas sim a sua potência. Nesse contexto, remar numa onda que surge em alto mar proporciona uma emoção totalmente diferente de surfar perto da costa. Sem falar no estrondo gerado pela onda ao se precipitar sobre a bancada, algo que amplifica muito a adrenalina quando se está remando no outside sobre a rasa montanha de pedra submersa.

Fabiano Tissot termina o drop sob a vibração do amigo Jacaré no jetski

Assim, posso afirmar que a experiência de surfar a Laje da Jagua reúne todos os ingredientes de uma verdadeira aventura, exigindo bastante comprometimento físico e mental dos participantes, além de reforçar um sentimento de trabalho de equipe que poucas vezes experimentamos no surf. No nível pessoal, todo o processo de ir conhecendo a onda aos poucos até chegar este dia só tornou a experiência ainda mais especial e prazerosa.

Os registros desta sessão foram feitos pelos fotógrafos James Thisted e Rafa Shot e o video produzido por Renato Tinoco, que mostrou muita disposição e versatilidade, filmando com drone e caixa estanque dentro d'água e na lancha. As imagens mostram um swell de sudeste de tamanho mediano e período longo, que gerou séries de 8 a 10 pés demoradas e predominância de esquerdas - o que para mim estava na medida certa para uma primeira investida na remada.



Na hora de encarar as ondas, a experiência de Thiago Jacaré e Fabiano Tissot, os mais assíduos surfistas da Laje ao longo do tempo, me transmitiu muita segurança no posicionamento e na maneira de abordar a onda. Um sentimento reforçado pela presença na barca de grandes surfistas profissionais como Fabio Gouveia e Rodrigo "Pedra" Dornelles, acostumados a encarar todo tipo de condição de surf.

A expedição contava ainda com surfistas com quem já participei em outras investidas à laje, como João Baiuka, André Luiz, Carlos Piri, Gabriel Galdino e Luiz Casagrande "Sapão", além do comandante da lancha, o lendário bombeiro e pescador Beto Cavalo. Numa sessão que durou das 9 às 15 horas, todos tiveram a oportunidade de pegar boas ondas e o espírito de alegria e camaradagem esteve em alta durante todo o dia, sem nenhum incidente mais grave do que uma prancha quebrada.

Em sua segunda investida na laje, Rodrigo Pedra Dornelles mostrou muito talento no tow-in


A session começou devagar e com um inesperado vento maral. Entrei com minha FG 8,7' e logo vi que precisaria de uma prancha maior para conseguir entrar nas maiores da série e me juntar a Fia com sua 9,6' e Tissot, Baiuka e Jacaré que estavam com suas gunzeiras de mais de 10 pés.

Assim, nas primeiras duas horas no pico fiquei mais na base, observando os movimentos da turma e eventualmente consegui entrar no rabo de umas três ondas menores para sentir a prancha e a energia da onda. Destaque para Tissot, sempre posicionado mais lá fora e disposto a remar apenas nas maiores, e o desempenho de Pedra no tow-in, desenhando umas linhas incríveis e atacando o lip com muita vontade.

Pegando carona em uma das muitas esquerdas surfadas por João Baiuka


Aos poucos o mar foi melhorando e as séries ficando mais constantes e encaixadas. Algum tempo depois, Fia, que havia se jogado na remada em umas boas esquerdas, resolveu experimentar umas ondas de tow-in e me deixou com a sua 9,6'"tarugo" para que eu pudesse ganhar mais velocidade na remada.

Foi aí que eu consegui entrar numa onda de verdade botando pra baixo e sendo engolido pela pesada espuma ao final drop. Ao voltar a tona depois de uma bela chachoalhada, a emoção do momento e as lembranças de toda uma vida observando aquela espuminha branca no horizonte me fizeram vibrar de alegria e adrenalina. Um sentimento pleno de estar vivo e de sentir a energia do oceano.


Momentos que fazem todo o esforço valer a pena

Mas a maior emoção viria um tempo depois, quando não consegui entrar na primeira onda de uma das maiores séries do dia e então me vi remando para fugir da onda que vinha atrás. Nunca me esquecerei da visão daquela sólida esquerda emparedada de 10 pés, na qual Thiago Jacaré vinha acelerando pra fugir do pesado lip que se projetava em alta velocidade. Quando percebi que não teria como furar aquela maçaroca, fui obrigado a largar a prancha no último instante e ela quase atingiu Jacaré ao rodar de volta com o lip. Por sorte, foi só um susto e ninguém, se machucou.




Esta foi provavelmente a maior onda surfada durante a sessão: Jacaré na onda e eu remando pra salvar minha pele!

Já descansando na lancha, totalmente exausto ao final da sessão, os comandantes estavam fissurados no movimento das águas que sinalizavam a presença de alguns cardumes e decidiram tentar a sorte com o anzol. Logo eles pescaram algo que parecia grande criando uma comoção a bordo. No duelo entre homem e peixe que se seguiu, de repente recebíamos na lancha um lindo atum de oito quilos para delírio de todos a bordo. Mais uma experiência inédita que vou guardar para sempre em minha memória.

Baiuka exibe o atum pescado

Voltando ao surf na laje, é certo que esta onda ainda não foi registrada em todo o seu potencial e que em tempos de XXL e limites sendo quebrados constantemente em ondas muito maiores ao redor do planeta, é muito difícil hoje em dia as pessoas mais ligadas no surf se impressionarem muito com estes registros. O que posso dizer, é que todos os participantes estavam bastante empolgados e felizes com a expedição durante a confraternização em terra firme após um dia intenso em alto mar.

No fim das contas, acredito que a emoção do surf reside neste desafio pessoal de cada um em testar os seus limites em busca da emoção de surfar ondas diferentes, não importando muito se o fato em questão foi registrado ou se alguém além de você se impressionou com o seu feito. Afinal, o importante mesmo é viver novas experiências.

Galera confraternizando após um dia de grandes emoções

  Fotos: James Thisted e Rafa Shot.  Agradecimentos: Thiago Jacaré e Atow-inj




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