5 Pra 1: Fabrício Flores Nunes

22 de novembro de 2016




Idealizador do festival Lagoa Surfe Arte (LSA), o gaúcho Fabrício Flores Nunes é um homem cheio de ideias. Mestre e doutor em Aquicultura, ele mora em Florianópolis desde 1993 onde divide a sua energia criativa e realizadora em várias frentes, como a fabricação de pranchas alternativas Sea Cookies, os estudos superiores sobre contaminação ambiental e as atividades culturais ligadas ao LSA.

Após o sucesso da segunda edição do evento, que promoveu a exibição de filmes no cinema do CIC e encontros ligados à cultura surf na Lagoa da Conceição, ele tirou um tempo para falar sobre estas realizações e a sua relação com o surf e as artes:



 
1 - Fale um pouco sobre o Lagoa Surfe Arte e a sua avaliação desta segunda edição?

A expectativa desta edição foi suprida com maestria. Deu tudo certo! Esperávamos nosso público e fomos além. Atingimos com o festival de cinema, cinéfilos de plantão que tiveram contato pela primeira vez com a produção cinematográfica de surfe e elogiaram muito a nossa selação. O festival recebeu inscrições de filmes de cinco países e, de dentro do Brasil, mais de seis estados tiveram representantes. Fora isso, alunos do RS e PR para o curso de pranchas e muitos interessados no conteúdo vieram aproveitar pelo menos um dos dias de programação. O sábado com palestras, vernissage e pranchas de surfe também foi outro ponto alto do LSA’16. O debate foi rico e a palestra do Adrian Kojin, fantástica.

O Lagoa Surfe Arte de 2016 termina como o único festival de cinema surfe que exibe seus filmes dentro de um cinema, já é apontado como um dos mais conceituados dentro do surfe, que congrega todas as artes visuais possíveis dentro do mesmo espaço e que ainda promove debates e palestras com temas que são muitas vezes maiores que o próprio surfe em si. O Lagoa Surfe Arte é vitrine para a cultura surfe, com arte e história, e serve também para mostrar para a sociedade que somos mais do que uma simples diversão de beira de praia. Temos um conteúdo riquíssimo, existe muito que mostrar para o público sobre a nossa verdadeira essência. Precisamos ocupar esse espaço para revelar, divulgar e manter nossa história. Em Santa Catarina são quase 50 anos de história do surfe que precisa ser celebrado e dado o devido destaque.





2 - Como você enxerga a relação do surf com as artes e o conceito de “surf art”? Como você trabalhou isso dentro da curadoria do LSA? 

Me parece que ainda anda em paralelo. São raríssimos os surfistas que são sensíveis à arte, que possuem uma tela original em casa ou uma cópia registrada na parede da sala. O surfe tem um viés crescente como um objeto mercadológico, o que deve aumentar ainda mais agora se tornando um esporte olímpico. Eu comparo o surfe à dança, suave e fluido, equilibrado e contínuo. O surfe não é fragmentado, é plástico. A arte é o que ela consegue atingir. Depende de referências. Com o Lagoa Surfe Arte quero que a vitrine de arte/surfe transgrida a comunidade surfística. Queremos apresentar para a comunidade sensível ao belo, às artes, o conteúdo que temos. Talvez esse caminho seja mais fácil para ter um respaldo da comunidade do surfe.

O Lagoa Surfe Arte é também um espaço de aprendizado, de apresentação de referências. A arte óbvia não tem muito espaço dentro do evento. Queremos buscar a arte verdadeira, batalhar pela valorização da expressão pessoal de cada um que traz a sua paixão pelo mar para seu material de trabalho, sejam eles pincéis, canetas, madeira ou plaina. A arte plena, livre, com movimento e colorida. A arte surfe merece paredes nas melhores galerias do mundo e um dos nossos objetivos é poder revelar o mundo ao artista, sendo muitas vezes sua primeira exposição a participação no LSA. A arte no surfe é livre, ainda com raríssimos espaços como este que estamos trabalhando para se firmar
.

Quanto à curadoria, é um garimpo. Estamos sempre atentos, seguindo artistas pelo mundo usando as redes sociais, buscando referências contemporâneas em outras exposições e instalações, assistindo canais com conteúdo como o Arte1, lendo e fazendo cursos de capacitação para apurar o olhar. Existe muito que fazer pelo surfe e as possibilidades de como fazer  e apresentar isso ao público são inspiradoras.





3 - Conte sobre a sua experiência como shaper, a criação da Sea Cookies e o que te inspira dentro deste universo de fabricação de pranchas?

Engraçado isso, mas eu sempre fui shaper. Sabia que seria shaper em algum momento. A marca “Sea Cookies” já existe desde 2000 desenhada no meu violão, mas foi virar seda de prancha apenas 14 anos depois. Todas as pranchas que eu encomendei eram apenas desculpa para adentrar a fábrica e ver como era fazer uma prancha. Esse universo sempre me encantou muito.

Meu pai e meu avô materno me introduziram no mundo das ferramentas muito cedo e hoje trabalho praticamente com todas elas e com qualquer material. Particularmente gosto muito de trabalhar com madeira e já fiz algumas coisas. Não consigo passar por uma pilha de entulho sem olhar e quem sabe resgatar um pedaço de material. Durmo em uma cama que fiz de madeira de demolição, em casa tenho mesa, estante, bancos, horta, tudo feito de madeira. Sempre gostei de trabalhos manuais. Especificamente sobre pranchas, sempre lia muito antes de encomendar uma nova ou comprar uma usada.
 

Sempre gostei de experimentar novidades, testar. Faço isso há uns 20 anos pelo menos. Gosto de estudar sobre construção naval também, principalmente estudar designs de regatas, "planing hulls"... Em 2009 conheci um shaper carioca que topou passar meus desenhos para o computador e usinar meus projetos desenhados no papel, digitalizados e enviados por email. Foram três projetos e todos eles funcionaram. Pensei que sabia projetar uma prancha!

Eu comprei meu primeiro bloco depois de visitar um amigo que estava desgastando as espumas na churrasqueira da casa dele e resolvi visitá-lo finalmente. Quando eu vi até onde ele tinha ido, vi que eu poderia ir além e fui comprar um bloco pra me arriscar finalmente. Naquele exato momento percebi que poderia fazer uma prancha também. Não sei se ele ainda compra blocos e shapeia, mas foi a fagulha que eu precisava para me arriscar nesse mundo.




Com toda a experiência que tinha com outros materiais, tinha a segurança de me arriscar com PU ou EPS sabendo que teria que “escutar” o que o material que iria usar pela primeira vez tinha pra me dizer. Ia fazer a minha primeira prancha lá na casa do meu amigo, mas quando fui orçar a laminação e o laminador escutou essa história toda, me ofereceu uma sala que ele finalizava os shapes usinados dele para trabalhar. Era melhor que a churrasqueira e na frente da minha casa: eu tinha um shaperoom para usar. Sem grana para comprar uma plaina elétrica, comprei o básico (régua template, plaina manuais para desbastar a longarina, surform, lixas de madeira), recuperei meus lápis e comprei alguns outros novos, peguei meus rabiscos e ideias no meu caderno Moleskine genérico, troquei os filtros de uma máscara 3M que já tinha e pedi umas dicas para alguns amigos shapers.

Levei umas duas semanas shapeando a primeira prancha, a “Pumpkin Seed”, uma 5’10” singlefin. Na época estava me recuperando de uma torção no joelho e voltar ao surfe com uma prancha feita por mim foi indescritível. Até hoje, a sensação é presente. Lembro com clareza a primeira onda da primeira prancha que fiz. Fantástico. Depois dessa fiz mais uma sem uso de energia elétrica, toda na lixa, uma assimétrica para goofies, sendo 6’1” x 21 ¾” fish twin de frontside e 5’9” x 19” round quad de backside. Batizada inicialmente de “Crooked”, ganhou o nome definitivo de “Dr. Freak” depois de passar 14 dias em Lobitos (Peru) e se tornar a melhor prancha da viagem. Depois dessas duas recebi minha primeira encomenda, uma mini simmons 4’11” e tive que comprar uma plaina.



Fiz até hoje umas 15 pranchas, apenas para amigos próximos. Minha paixão e meus questionamentos hidrodinâmicos me afastam do que o grande mercado consumidor quer adquirir. Faço pranchas para quem quer se divertir no mar, polir o surfe, reencontrar a alegria de surfar, de quem está cansado em tentar ser quem não é e aceitar se descobrir. Gosto de shapear biquilhas, monoquilhas, finless... quero em breve fazer uma bonzer pra mim.

Minhas pranchas sempre foram mais largas que o normal. Nunca entendia, quando tinha uns 18 anos (1996), as pranchas tinham que ser estreitas. Borda fina, 18” de meio, rockers exagerados, nunca me conquistaram. Todos meus amigos queriam ser o Kelly Slater e eu deixava crescer o meu cabelo porque queria ser o Robert Edward Machado! Pedia pranchas mais retas, com no mínimo 19 ½” de meio e já com mais de 1,8m de altura minha prancha era uma 5’11. O nome “Sea Cookies” vem daí, das minhas pranchas e percepção de que esse é o caminho. Pranchas largas, como umas bolachas. Pranchas pro mar, bolachas do mar. Pranchas com uma boa remada, com facilidade de entrar na onda, otimizam o tempo do surfe, aumentam teu quantitativo computando mais ondas por sessão, aumentando a diversão e, se você surfa muito mais e cansa menos, é muito melhor.


O que me inspira no universo da fabricação de pranchas é buscar fazer uma prancha que seja a mais fluida possível, proporcionando uma velocidade perceptível de quem usa, tornando o surfe mais recreativo do que esportivo. As Sea Cookies pretendem ocupar a sala de estar ou jantar de quem as adquire, por serem esculturas funcionais extremamente bem acabadas, como uma peça de arte. A prancha de surfe da grande maioria dos surfistas fica mais tempo fora da água do que dentro dela. Então porque guardá-la na garagem ou no homebox? Quem tem uma Sea Cookies, tem arte no deck e inovação e engenharia no bottom.




4 -  O que o surf te ensinou?

Eu ganhei meu primeiro skate aos 5 anos, raspei a primeira parafina de uma prancha com 8 e imbiquei na primeira onda que tentei surfar com a prancha do meu primo nesse mesmo verão de 1987 em Quintão, RS. O surfe já se apresentava como uma escola pra vida. Comecei a surfar quando cheguei em Florianópolis, em 93, com 15 anos, apesar de ter uma prancha prometida para meu 12° aniversário - dos 10-15 morávamos em Brasília e pouco poderia fazer com uma prancha no meio do Cerrado.

Desde que cheguei em SC, sempre fui um surfista de final de semana, visto que morava no continente, sempre tive que estudar e logo depois comecei a trabalhar. Tive a certeza que não seria atleta depois de umas duas baterias em campeonatos que me inscrevi. Era muito nervosismo e pouco prazer, e me afastar do sentimento de diversão nas ondas me fez ver que não era meu caminho.

Os anos foram se passando, algumas pranchas encomendadas e fui observando que meu caminho não era dentro da linha radical. Minha diversão está no deslizar, no correr a onda, na conexão... poucas manobras me dão mais prazer do que um longo floater, uma rasgada perfeita de backside ou um cutback de mini simmons. Sou feliz surfando ondas de 1 metro, o melhor humano que vive dentro de mim se sobressai depois de uma boa sessão de surfe em um mar de SE com vento O, melhor ainda se tiver chovendo. Sou um surfista à moda antiga, que senta na prancha para ver a onda inteira do amigo, que comemora junto a onda surfada até a areia.

O surfe ensina a observar o melhor momento para tomar as decisões e de cobra por elas. Por vezes cobra caro. Estar no mar é contemplar em poder raciocinar com calma, de costas pra terra onde tudo te espera, e literalmente desconectado dela boiando sentado esperando o próximo set, a próxima oportunidade. As ondas são únicas, é a natureza delas. As oportunidade também. Aprendemos a se posicionar no outside com tantos outros querendo o mesmo, e mesmo acontece no nosso cotidiano comum. O surfe ensina que o ônus e bônus é quase um equilíbrio perfeito. O surfe acalma, lava a alma, reorganiza as ideias, fortalece, rejuvenesce, inspira. Eu não sei o que eu seria sem ter o surfe na minha vida.




5 -  Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho artístico ligado ao surf o que você faria?

Investiria no próximo formato do Lagoa Surfe Arte em 2017 (risos). 
Mas, limitando aos trabalhos artísticos, faria algo que registrasse a história do surfe de forma mais jornalística. Gosto imenso de documentários e livros e acho que dá pra fazer as duas coisas em comunhão. Creio que produziria algo que unisse uma forma de expor para a comunidade a riqueza que temos de história e pessoas envolvidas no que hoje se tornara um esporte de mídia e patrocínios milionários, mas que ainda se encontra marginalizado e sem o apoio ideal. O formato de 2017 tá nessa direção!



Créditos das fotos: divulgação LSA, Sea Cookies e acervo pessoal



Surf Edit

17 de novembro de 2016



























Exibido no último sábado no Mimpi Film Fest no Rio de Janeiro, o documentário "A Pedra e o Farol" recebeu o prêmio de "Melhor Longa Metragem Nacional" do Juri Oficial do festival, que destacou o "trabalho de pesquisa realizado pela produção", nas palavras do diretor do juri de surf, Steven Allain, editor das revistas Stab Magazine e Hardcore.



Agora o filme chega às telas de Portugal nesta sexta (dia 18) às 19:30hs dentro da programação do Surf At Lisbon Film Fest (SAL). Em ambas as ocasiões, optei por inscrever uma versão editada do documentário, batizada de "Surf Edit", com 67 minutos de duração (o filme completo tem 108 mins), num conteúdo mais focado na parte de ação nas ondas e, portanto, mais adequado aos festivais de filmes de surf.




Nesse sentido, o reconhecimento do juri do Mimpi foi muito positivo e foi uma alegria muito grande poder exibir o filme para o público carioca, mesmo com a exibição sendo prejudicada pela forte chuva que afetou os três primeiros dias do evento cuja proposta é exibir cinema ao ar livre e incorporar uma extensa programação musical.

Mimpi 2016

Mas se a atenção ao filme foi prejudicada pelas intempéries, o grande barato do festival é mesmo o de promover o encontro de pessoas que compartilham a paixão pelo surf e suas manifestações artísticas. Assim foi a satisfação de reencontrar colegas como Loic Wirth, Mark Daniel, Pablo Aguiar, Bruno Tessari e Bruno Zanin, que participaram de um interessante debate crítico sobre o mercado audiovisual do surf.

Assistir às novas produções dessa turma talentosa é um estimulo para seguir em frente, embora eu tenha ciência de que produções como "A Pedra e o Farol" fogem bastante desta estética baseada em música e fotografia de ação, que caracteriza o que costumamos chamar de "filmes de surf". Nesse sentido, produções premiadas como o curta "Tábua Santista" do surfista profissional (e agora jornalista formado) Junior Faria, e o longa "Saca"de Júlio Adler, que narra a trajetória do surfista português Tiago Pires, possuem um caráter mais documental e semelhante à proposta de "A Pedra e o Farol", celebrando assim uma saudável diversidade de estilos dentro da curadoria do festival.       

Mimpi 2016

Já o SAL é um evento pelo qual tenho muito carinho, pois foi onde estreei meu outro documentário "Pegadas Salgadas" em 2012. De lá pra cá, conhecendo pessoalmente os organizadores do evento: Ricardo Gonçalves e Luís Nascimento, sei do cuidado e motivação genuína que os move para organizar as exibições anuais nas salas do belo Cinema São Jorge em Lisboa.

 
Assim, é sempre uma honra poder participar do evento e ver que, com muita dedicação, eles conseguiram chegar à quinta edição do SAL e para esta edição contam com um merecido apoio financeiro para continuar exibindo filmes de surf na telona do cinema. Longa vida ao Mimpi e ao SAL!


5 Pra 1: Thomaz Crocco

7 de novembro de 2016



Fazer as coisas com coração e propósito é o que move Thomaz Crocco, vulgo Tz Jamur. E foi imbuído deste espírito que este surfista e designer gaúcho foi em busca de seus sonhos, produzindo filmes com sua produtora Jamur e idealizando o festival MIMPI, que promove a união de filmes de surf e skate com muita música e arte visual, numa grande confraternização anual - que este ano acontece entre os dias 12 e 15 de novembro no Rio de Janeiro.

Bastam poucos minutos de conversa com Thomaz para sentir que o seu envolvimento com o surf e as artes são guiados pela busca de um crescimento espiritual, também vivenciada na prática constante do yoga. E é esta energia agregadora que transformou Thomaz e o Mimpi em referências para toda uma geração de criadores audiovisuais ligados ao surf e o skate. Hoje radicado em Garopaba, após ter morado na Califórnia e na França, ele compartilhou um pouco de suas ideias e visão de mundo na seguinte entrevista:



  
1 - Me conta um pouco sobre como se desenvolveu a tua relação com o surf e com as artes e como você enxerga a ligação entre estas atividades?

O surfe iniciou em Atlantida (RS) onde meus avós tinham uma casa e lá passava os verões. Foi durante os anos 80, o nosso vizinho era o Geraldo "Boto" Ritter e a galera deles estava sempre na frente da casa dele e aquilo me seduziu e inspirou. Meu pai me ensinou a "pegar jacaré" e ter cuidado com as correntezas e buracos, bem perigosos nesse litoral, e por ser asmático sempre fiz natação em Porto Alegre.

A arte veio de casa, com minha mae Heloisa Crocco e na chácara dos meu avós em Canta Galo (zona rural de Porto Alegre). Com 18 anos fui morar em San Diego na Califórnia e lá me dei conta que o surfe era uma maneira de viver possível e não uma utopia como se parecia na minha realidade até então. Foi uma experiência transformadora e não teve mais volta.

Eu hoje percebo que os dois são atividades de liberdade, expressão, realização pessoal e conexão espiritual.

 


2 - O Mimpi é hoje mais que um festival de filmes de surf e skate, reunindo diversas artes, em especial a música. Como você avalia o conceito e a evolução do evento ao longo dos anos e o que buscou na curadoria para a edição 2016?

Eu fico muito feliz com a evolução do MIMPI, nem sempre é fácil ver um filho crescer, mas junto com a Void a gente faz com amor e dedicação pra ficar cada vez mais legal. Percebo que cada vez mais temos filmes com coração e propósito, além de qualidades técnicas.

Na curadoria acho importante diversificar bem, compartilhar diferentes olhares e estilos, sempre valorizando filmes originais e corajosos, de verdade e com propósito. O nome do festival significa sonho em língua indonésia, portanto ver que tem sonho na produção é a base do meu critério de seleção. Nosso propósito maior é incentivar as pessoas a seguir o seus sonhos e buscar a realização pessoal.





3 - Atuando como designer, realizador de filmes e organizador de festival, como você lida com a questão do excesso de estímulos visuais no mundo atual, onde vivemos cercados por vídeos e imagens por todos os lados?

Eu acho que é saudável, pois a gente tem oportunidades incríveis de ver locais, culturas, ideias, estilos, técnicas e cada vez mais tem menos espaço para o que não é de verdade. E uma historia boa é muito melhor que todas as evoluções tecnológicas.






4 - Cite algumas de suas principais inspirações no universo das artes, dentro e fora do surf?

Minhas inspirações hoje em dia é ver coisas simples e poéticas. Gosto de ver arte urbana engajada, tenho um prazer em ver intervenções. Dos clássicos sempre admirei Kandinsky, Klee e Gauguin, caras que transcenderam a técnica.

As quebras de paradigmas como os Dzi Croquettes também são performances que inspiram. Sebastião Salgado pela entrega e rigor técnico e minha mãe Heloisa Crocco pela sutileza, sensibilidade e inspiração na natureza.


 
No surfe eu sempre gostei de Jack McCoy com a psicodelia e humor sutil, os Cambitos, filmes que contam uma historia como o Zen & Zero. Eu adoro pranchas de surfe, acho que são verdadeiras obras de arte e uma ferramenta para essa conexão espiritual, são objetos sagrados. A estética das marcas de surfe também, gosto dos logos e conceitos gráficos, coleciono adesivos.

Joel Tudor se expressa com muita elegância e originalidade dentro d'água, o Neco (Padaratz) também é um estilo que eu gosto tem uma conexão forte e espiritual com os elementos. Vendo o surfe brasileiro como forma de expressão, eu gosto muito do nosso estilo, ele representa muito a nossa personalidade, a nossa cultura, intuitiva, livre, selvagem.

O brasileiro aprendeu a surfar sem uma escola ou referência marcante, e sim foi pra agua e fez, com as ondas que tem, e esse resultado eu acho lindo, Peterson (Rosa), Mineirinho, Italo (Ferreira), Neco, Pedra (Rodrigo Dornelles), Pedro Muller, Fabinho (Gouveia), adoro ver eles surfando.




5 - Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho artístico ligado ao surf o que você faria?

Acho que seria a implantação de refúgios do surfe em cada praia e cidade,um local para desenvolver a consciência dos valores verdadeiros, onde seria possível treinar, ter práticas espirituais, assistir filmes, algo ligado à formação de surfistas e artistas, criar filmes e trabalhar técnicas de arte em geral.

Além de consciência de sustentabilidade com a produção de hortas e pomares e a utilização desses recursos, o desenvolvimento de pranchas e acessórios ecológicos.

Nas cidades que não tem mar, poderia ser construido uma piscina de ondas tipo aquela do Kelly (Slater) pra galera ir na hora da educação física ou lazer e que funcionasse com energia solar ou outra maneira sustentável.



 Créditos: foto de surf - Ana Catarina Teles. Demais fotos: acervo pessoal e projeto Rekombinando


Sessions: André Luiz

21 de outubro de 2016



As filmagens de surf para o documentário "A Pedra e o Farol" renderam muitos registros de sessões pelas praias do Farol de Santa Marta e algumas investidas na Laje da Jagua entre 2014 e 2015. A maior parte deste material captado não entrou na edição final do filme e permaneceu guardado nos HDs, especialmente pelo fato do documentário não estar focado 100% no surf.

Resolvi tirar um tempo para resgatar parte desse material, com a edição de um clipe reunindo algumas imagens de ação do surfista André Luiz, que apareceu com destaque nas melhores sessões de surf registradas. Natural de Araranguá e local de Itapirubá, André foi um daqueles personagens que apareceram naturalmente durante a produção do filme, e tivemos a oportunidade de criar uma amizade a partir de sessões juntos em picos como Santa Marta e Cardoso e posteriormente na Laje da Jagua.



"Frequento o Farol de Santa Marta desde criança. Quando meus pais queriam me levar em um lugar diferente pra surfar era lá que eles iam. Hoje não mudou muita coisa, por morar em Itapirubá, bem próximo do Farol, estou sempre buscando as boas ondas que os picos de lá proporcionam", conta André, que até o ano passado vinha competindo no circuito catarinense profissional (que não rolou este ano) e em algumas etapas do circuito brasileiro.



Diante das dificuldades em conseguir viabilizar a carreira profissional como competidor pela falta de campeonatos, André conta que nos últimos anos começou a focar mais em free surf, viagens, e ondas grandes. E foi nessa busca, que pude acompanhar as suas primeiras duas experiências com o tow-in na Laje da Jagua, em registros que ficaram eternizados no filme e na mente de André:

"Graças ao Thiago Jacaré e à galera da Atowinj, conheci a Laje da Jagua. Logo na minha primeira onda no pico (minha primeira onda fazendo tow-in também), em um dia com o swell médio para o lugar, tomei o pior caldo da minha vida. O Jacaré me puxou para a direita e a pedra apareceu do nada, deformando a onda, fazendo com que eu caísse e ficasse muito tempo submerso. Por muita sorte não bati nas pedras. Depois disso surfei mais algumas ondas, porem bem menores que a primeira.", relembra.



Em 20 de maio de 2015 pegamos o maior mar da gravações e contamos com o suporte de uma lancha para conseguir os melhores registros: "Na minha segunda investida, com um swell grande, novamente a direita estava funcionando. Somente quem já viu e surfou essa onda pode ter uma noção real de como a onda é pesada e perigosa. O tubo é algo muito raro e difícil, pela maneira com que a onda quebra na rasa bancada. Tudo acontece muito rápido. É fácil ver as fotos e criticar a galera que surfa por lá. Os caras realmente arriscam a vida. Tudo lá é difícil:  chegar, surfar, registrar... mas surfar uma bomba daquela faz tudo valer a pena!", relata.




Surf Spaghetti

13 de outubro de 2016



(Matéria publicada originalmente na edição 333 da revista Fluir em julho de 2013)


Um filme de surfe rodado exclusivamente na Itália em película de 35mm e que teve a sua finalização bancada com recursos de um financiamento coletivo na internet.  Assim é Bella Vita, a mais recente produção do diretor norte-americano Jason Baffa, autor de clássicos do gênero, como “Singlefin: Yellow” e “One California Day”.





Viagem Analógica

Nos últimos anos, o acesso aos melhores picos de surf no mundo foi democratizado pelas muitas agências de viagens especializadas em surf trips e pelos serviços de internet que disponibilizam mapas atualizados com previsões precisas sobre as condições das ondas nos quarto cantos do planeta.

A descoberta de ondas épcias e sem crowd que são o tema central da maioria dos filmes de surf voltou-se então para destinos cada vez mais inusitados, como no desafio do frio extremo possibiitado pela evolução das roupas de borracha em litorais da Rússia, Islândia e Alasca, ou então, na tentativa de “espremer limão” em destinos pouco concorridos e exóticos, aproveitando a velha maxima de que “todo pico tem os seus dias mágicos”.

Viajar em busca de ondas na Itália certamente se encaixa na segunda categoria. A ousadia de apostar no balanço das águas do Mar Mediterrâneo para captar imagens para um filme bilíngue de 82 minutos sobre surfe, utilizando a custosa tecnologia analógica só se justifica em termos lógicos se pudermos evidenciar o subtexto que deu origem à Bella Vita.

Afinal, mesmo com o seu respeitável currículo e um elenco de sufistas midiáticos como Chris Del Moro, Dave Rastovich e os irmãos Conner e Parker Coffin, como foi que Baffa conseguiu amealhar US$ 30 mil de centenas de desconhecidos na internet para finalizar esta ambiciosa produção?

 
Raizes Italianas

A resposta pode começar pela descrição do roteiro: “Bella Vita” é um documentário que registra a cultura surfe da Itália, a partir do resgate das raizes italianas do talentoso surfista Chris Del Moro como fio condutor da história.

"Encontrei Chris por acaso em Bali e tomando umas Bintangs trocamos umas ideias sobre a fantástica e ainda pouco conhecida subcultura do surf na Itália. Daí ele falou desta ideia do filme confiando a mim esta história pessoal de sua conexão com a Itália", lembra Baffa.

Raízes italianas? Assim como ocorre no Brasil, os Estados Unidos possuem um passado de significativa imigração italiana na formação de seu povo. Ao longo de sua infância, Chris Del Moro passou muitas férias com seus parentes italianos, onde foi exposto à excelência da arte, arquitetura e design tão associadas à identidade deste país. Estas experiências marcaram a formação de sua personalidade e moldaram o experimentalismo e o apuro estético de seu surfe, lapidado nas ondas da Califórnia onde aprendeu a surfar.

Convidado a embarcar nesta busca de Del Moro por reconectar-se com as memórias e as paisagens de sua infância na Itália, depois de um longo período de quinze anos ausente, o espectador percorre os encontros familiares de Chris com seus parentes e personagens que variam de surfistas à artesãos, compondo uma aventura singular, que reverbera em todos aqueles que buscam consolidar a sua identidade em um mundo cada vez mais globalizado e impessoal.



Novidade e Tradição

Os caminhos percorridos pela equipe de filmagem na costa continental e nas ilhas do território italiano atrás das melhores ondas se baseia num roteiro nostálgico em meio a paisagens recheadas de história no Mar Mediterrâneo, ao qual se juntam, além dos surfistas já citados, alguns expoentes locais, como Leonardo Fioravanti e Alessandro Ponzanelli.

Mergulhar numa cultura que respira tradição, mas que ao mesmo tempo possui uma cena surfe ainda em formação, cria uma enriquecedora dialética ao filme. Ao longo de 100 dias, Baffa, ele próprio um descendente de italianos, esteve imerso neste ambiente cheio de surpesas e contraposições, onde as nuances da alma latina cheia de paixão que corre nos italianos imprimiram um tempero todo especial à narrativa.

Estes elementos culturais emoldurados pelos cenários rurais e o litoral acidentado da costa italiana, somam-se ao orgulho dos surfistas locais em receber expoentes como Dave Rastovich em suas ondas. Um comportamento amistoso típico de picos onde o crowd ainda não deteriorou o espírito de camaradagem original dos surfistas, no prazer e compartilhar boas ondas com os visitantes.

Fora  d’água este reconhecido espírito expansivo e agregador típico dos italianos também rola em alto volume e Baffa aproveitou este ambiente para novamente explorar as relações humanas e sociais no universo do surfe, que fizeram a fama de seus filmes anteriores.  “Penso neste docuemntário como o fechamento da minha trilogia ‘Sérgio Leone’ de filmes de surfe”, brinca Baffa por email, em referência ao célebre diretor italiano de filmes de faroeste que consagraram o gênero “western spaguetti”.

 


A qualidade das ondas

Assim, já podemos elencar na lista de atrativos de Bella Vita, a união de boas ideias, bons personagens, fotografia caprichada e insights poéticos, para formar uma narrativa inspiradora. Mas afinal de contas, rolam boas ondas na Itália? Entre um gole e outro de café espresso, Baffa responde com sinceridade: "Tem ondas bem divertidas na Itália, mas você tem que ser extremamente paciente e persistente para se dar bem. O potencial para ondas exepcionais está lá, mas pode significar a busca de toda uma vida, pois são tantos fatores envolvidos que precisam se alinhar”.

Na Itália, como em qualquer outra surf trip, um bom planejamento para encontrar boas ondas é essencial, mas, ainda assim, filmar surfe será sempre um jogo de sorte. Prova disso é que, apesar de todos os esforços e da escolha teórica pela melhor época do ano para pegar ondas na Itália, Baffa lamenta que a temporada de mais de 30 dias de Dave Rastovich em solo italiano tenha rendido apenas quarto boas sessões de surf. Mas no fim das contas, o compromisso com a realidade é um dos principais alicerces de um filme documental e a frustração de não encontrar ondas também deve ser aceita e incorporada ao contreúdo projetado na tela.



35 mm de Desafios

A opção por filmar em 35mm implicou no uso de câmeras grandes e pesadas, transformando a movimentação pela praia numa verdadeira empreitada para a enxuta equipe de três profissionais. “Eu sou razoavelmente forte, mas estas cameras acabaram comigo. A base da minha coluna ainda está avariada”, confessa Baffa.

E se pensarmos que a maioria das salas de cinema e festivais da atualidade trabalham com exibição de cópias digitais, filmar em pelicula parece um preciosismo. Mas Baffa conta que todas essas questões se dissiparam assim que sentou-se na ilha de edição para assistir ao resultado de uma tomada aquática em filme de 35mm:  “O visual de Dave Rastovich ou Conner Coffin executando um cutback em super câmera lenta é incrível. A pelicula simplesmente captura o movimento da água de um jeito tão bonito e mais orgânico que os pixels digitais”, avalia.


Financiamento Coletivo




Bater o pé para produzir um filme independente com uma qualidade técnica diferenciada levou Baffa a arriscar-se em uma campanha de financiamento coletivo pela internet, e de quebra examinar por antecipação a aceitação do publico em relação a Bella Vita: "Eu sinto que o meu público merece uma certa qualidade de produção. Não quero lançar uma porcaria de projeto”, explica. “Através do apoio do público nós conseguimos acessar estes recursos adicionais para fazer as coisas ficarem realmente boas ".

Assim, ao longo de 40 dias, num esquema “tudo ou nada”, Baffa acompanhou com ansiedade a evolução das contribuições online em busca dos 30 mil dólares requeridos para finalizar a sua obra. “Esta experiência foi muito excitante, vendo as pessoas botarem a cara e validarem todo o trabalho e risco envolvidos até o momento. Dito isto, certamente foi assustador esperar para ver se alcançariamos o objetivo, mas sempre tive fé que ia dar certo”, relata Baffa.

Financiamento aprovado, o investimento do público foi então aplicado na aquisição de uma trilha sonora de alta qualidade e outros elementos técnicos de finalização como efeitos gráficos e de animação.


O filme Bella Vita será exibido no próximo dia 21 de outubro às 21 hs no Cinema do CIC em Florianópolis dentro da programação do evento Lagoa Surfe Arte.


Related Posts with Thumbnails