Episódio 02: "Só Pra Variar"

23 de fevereiro de 2017



Da pranchinha ao longboard: No segundo episódio da websérie Shapes & Fia. Fabinho Gouveia fala sobre as motivações que resultam na criação dos seus diferentes modelos de pranchas, batizadas com nomes divertidos como Rapadura Aquática, Gordita Supreme, Jamanta Extreme e Cobra de Duas Cabeças.

Explorando a ideia de diversificar ao máximo o equipamento em busca da diversão, ele testa algumas dessas criações numa sessão de surf na Joaquina, além de surfar de longboard no quintal de casa e de pranchinha em Porto de Galinhas (PE). No clipe final, Fia desenha suas linhas nas ondas das praias do Farol de Santa Marta durante as gravações do documentário "A Pedra e o Farol". 





5 Pra 2: Surfari

21 de fevereiro de 2017



A série "5 Pra 1" do Surf & Cult está de volta em 2017 em dose dupla (então é 5 Pra 2! ) trazendo a dupla dinâmica Lucas Zuch e Eduardo Linhares - nome de guerra "Duda Saracura" -, que juntos comandam as muitas ações do Surfari.

Denominado por seus criadores como "uma plataforma de compartilhamento de experiências", o Surfari é sem dúvidas o mais diversificado, canal de geração de conteúdos ligados ao surf, abrangendo desde a produção de matérias, entrevistas, ações de mídia, tutoriais, paródias e webséries  - como o divertido (e já saudoso) jornal "Surfari Na Semana Passada"- , à produção e cobertura de diversos eventos como o SurFest, passando pela confecção de roupas e acessórios, até a realização de pesquisas de mercado, com o projeto "Reconhecendo o Surf", a mais  ambiciosa empreitada da dupla, que os levou a cruzar de carro todo o litoral brasileiro do Chuí ao Oiapóque.




Em meio ao deprimente marasmo da mídia de surf, sempre admirei a dedicação e o espírito criativo e inquieto de Duda e Lucas, que decidiram não baixar a cabeça diante das adversidades e da falta de reconhecimento real (R$!) da indústria frente ao trabalho realizado ao longo dos anos. Se a medida  do que significa "ter sucesso" é algo subjetiva, o certo é que eles conquistaram muitas amizades e experiências, formaram uma equipe e construiram uma trajetória de crescimento constante para o Surfari, encontrando uma linguagem própria baseada em conteúdo relevante, temperado com altas doses de bom humor.


Ainda em busca da fórmula mágica para a tão sonhada "monetização do conteúdo" produzido, eles decidiram largar Porto Alegre e tentar a sorte no Rio de Janeiro, em mais uma nova etapa da já rica jornada do Surfari, e sobre a qual eles compartilham aqui algumas impressões. Go for it boys!




1 - Me conta como começou o teu envolvimento com o surf e como se deu a decisão tentar viver profissionalmente em torno do universo das ondas?

Duda: Ser um surfista morando a 800km do mar nunca foi tão glamuroso. Mas assim, entre a vida rural e os rolés de skate na lomba, cresci até os 16 anos na cidade de Uruguaiana, no interior do Rio Grande do Sul. Nunca faltou incentivo para surfar pois meus pais sempre alugavam uma quinzena de verão na praia da Ferrugem e meu irmão mais velho é o cara mais fissurado que conheço. Surfar foi natural, foi familiar e depois acabou sendo o que definiu meu grupo de amigos em Porto Alegre.

Quando entrei na faculdade de publicidade e propaganda percebi que os bem-sucedidos na minha área trabalhavam muitas horas por dia, (10 a 12h/dia) fazendo da empresa a sua principal moldura para a vida. Trabalhei um ano em agência, depois dois anos com pesquisa de comportamento de consumo e então surgiu um doido chamado Lucas com a proposta de transformar em business um "blog de compartilhamento de experiências" chamado Surfari. Foi e continua sendo o maior desafio que já botei pra baixo, pois um grande medo era tornar trabalho o meu principal lazer. Estava aí a resposta de como eu poderia emoldurar minha vida de maneira mais agradável do que o mercado me oferecia na época!




Zuch: Comecei a surfar aos 10 anos por influência de um ex-namorado da minha irmã. Um fato engraçado é que esses dias, depois de 17 anos (que obviamente não está mais com ela) ele veio me pedir umas dicas de pranchas pra comprar. Baita ironia, agradeci bastante a ele por ter colocado aquela pilha. A decisão foi acontecendo depois que eu voltei de um ano vivendo na Austrália, quando tinha 19 anos. Continuei a faculdade de administração e por obra do acaso fui me envolvendo com o surf no lado profissional e acadêmico. Primeiro o shaper Gabriel Vicente (filho do legend Jorge Vicente) encomendou uma pesquisa de mercado (raridade, né!!) pra empresa júnior da faculdade, trabalho que caiu no meu colo durante o processo seletivo pra ingressar na empresa.

Depois, na hora de fazer o TCC, pesquisei sobre o perfil psicográfico dos surfistas de Porto Alegre, como minha orientadora era a única pessoa que acreditava que eu poderia tirar um 10 com aquele tema, mergulhei fundo na pesquisa pra mostrar pra todos por ali que era possível. Veio o 10, e na mesma época o Surfari estava iniciando, então adaptamos as informações da pesquisa pra criar o Reconhecendo o Surf (versão 1). Com a aceitação do trabalho pelo mercado, e então com 21 anos, vi que era hora de largar o emprego de corretor de ações da Bolsa de Valores e me dedicar ao Surfari.




2 - O Surfari é uma plataforma em constante transformação. Como você analisa a trajetória do negócio até aqui e qual a visão a curto e longo prazo, frente os desafios de se produzir conteúdo relacionado ao surf no Brasil?

Duda: O desafio é constante. Empreender no Brasil envolve muita doação e as recompensas geralmente vem a longo prazo, por isso, nada faria sentido se não estivermos seguindo nosso coração. Em 4 anos já tivemos oportunidade de virar uma produtora de vídeos, já tivemos oportunidade de ser uma produtora de eventos, já flertamos com a idéia de entregarmos a marca para a confecção de roupas. Assumir inteiramente um desses formatos poderia até nos deixar ricos, mas tiraria um prazer incrível que temos em acordar na segunda-feira e colocar os projetos que acreditamos na pauta.

No curto prazo, estamos bem instigados com a mudança da empresa para o Rio de Janeiro, um campo fértil para a formação de marcas e principalmente para a "monetização do conteúdo",  que parece ser o maior desafio de todos que estão na barca da produção de conteúdos, desde o Surfari, até a Rede Globo. Pro mercado de surf então, que é super prazeroso trabalhar e por isso muita gente não se importa em monetizar, não seria diferente.

Entre as novas iniciativas do Surfari nessa linha está o fortalecimento do canal do Youtube, a busca de patrocinadores mensais e a parceria com marcas de confecção para collab de coleções. Assim, pretendemos nos organizar melhor para tratar os projetos maiores com mais carinho.





Zuch: Desde o princípio o Surfari sempre teve um crescimento orgânico, nós nunca aceleramos ele com uma grande bolada ou através de um investidor. E avalio que esse é o melhor crescimento que um negócio pode ter, pois uma vez que alguém fora os donos esperem um retorno dele, diversas decisões se tornam muito complexas. Nós não somos contra o capitalismo, viu, mas desde o início era difícil definir o que o Surfari fazia (e faz), porque ao longo do tempo investíamos nossa energia e tempo nas oportunidades que apareciam.

Então, de um portal de conteúdo (cuja rentabilidade e modelo de negócio é bem difícil de sustentar) que é a nossa raiz, surgiram outros membros, caso dos eventos e dos produtos. Para lançar oficialmente a plataforma, no fim de 2012, fizemos um evento com exibição de filmes, exposição de fotos, DJ, coquetel, bar. Então, nesse evento, as pessoas queriam levar o Surfari pra casa de alguma maneira, seja por adesivo ou uma camiseta.



E assim, nós fomos identificando oportunidades, e uma coisa levou a outra. Depois de diversos vídeos, eventos e produtos, com vários acertos e alguns erros (tão ou mais importantes), estamos começando a nos encaminhar a um modelo economicamente viável. Basicamente, este modelo segue sendo o tripé (conteúdo, evento e produto), mas com custos mais baixos e conseguindo a parceria com marcas que queiram estar aliadas às nossas iniciativas. Passado esse flashback, o que eu vejo para o curto e longo prazos é que pra viver do surf é preciso ser multimídia e multicanal.

O desafio é encontrar uma linguagem que seja autêntica, pois isso vai te trazer um público fiel, e então, esse diálogo tem que continuar no Instagram, no Youtube, no festival de filmes, no coquetel, no boné e no adesivo. Acho que a grande dificuldade pela qual o surf passa é a dificuldade que qualquer setor enfrenta no Brasil, por exemplo, se você analisar o varejo os números estão em constante queda, e na minha opinião é porque os gestores continuam fazendo as mesmas coisas e esperando resultados diferentes.




3 - Na jornada do Reconhecendo o Surf pelo Brasil o que mais te surpreendeu e chamou a atenção em relação à cultura surf brasileira? O que você diria que une e distingue os surfistas ao longo do litoral brasileiro?

Duda: Esse projeto mudou nossas vidas. Foi o mais ambicioso, o mais trabalhoso e com certeza o que mais vai ter repercussão. Depois de mais de 260 entrevistas por todo litoral ficou bem claro que o surf tem potencial para ser a "Maior Ferramenta de Transformação Social" que o país dispõe. É bizarro, mas quando colocamos uma conclusão dessas na mesa é mesquinho querer saber se o brasileiro prefere uma triquilha a um modelo retrô para os dias de mar pequeno. Veja bem, quando falamos em transformação social não estamos falando apenas em ajudar a população carente, mas sim de uma expansão de horizontes para todas as classes com maior conexão com hábitos saudáveis, melhor relação com o ambiente e com o território local, entre outros tantos benefícios que foram bem fáceis de comprovar.

O brasileiro tem uma facilidade incrível de encontrar felicidade qualquer lugar e situação, é um farejador nato para isso. Essa "caça" pela alegria é a nossa principal qualidade e isso se reflete no surf naturalmente. Para quem não entende a paixão do próximo, essa mesma característica se torna nosso principal defeito



Zuch: O que mais me surpreendeu é o quanto o Brasil é rico. Acho que a mídia em geral cria em nosso imaginário uma ideia de escassez, de violência, de instabilidade. E o que eu pude ver com meus próprios olhos é que o Brasil é abundante. Talvez a história seja mais sofrida no interior, mas no litoral não falta alimento, não falta bom humor. Não quer dizer que esteja às mil maravilhas, mas esse discurso pessimista da mídia nos faz não ter vontade de conhecer o Brasil, e acho isso muito errado. Conhecer o país me deu muito orgulho de ser brasileiro.

Em relação ao segundo ponto, acho que o que une o surfista brasileiro é o fato de ele ser uma rede social. Foi através dessa rede que pudemos viajar sendo recebidos de casa em casa, alimentados, guiados, simplesmente dizendo que a pessoa da cidade anterior tinha nos indicado a pessoa seguinte, então esse elo de confiança entre surfistas é bem surpreendente.

Em relação ao que distingue, acho que são as motivações. Enquanto pra surfistas que tem uma vida mais confortável financeiramente o surf é um escape, um componente do estilo de vida e auto-realização, existe uma grande gama de surfistas que vê no surf o ganha-pão, a compleição das necessidades básicas da pirâmide. Mas o engraçado é que, embora isso faça com que tenham abordagens diferentes no surf, a satisfação que tem com o esporte é muito semelhante.




4 - Quais são as tuas maiores inspirações no surf e nas artes?

Duda: Gosto de trazer referências de fora para dentro do Surf. Sinceramente acho que muitas produções de surf acabam se inspirando no próprio meio e isso corrói a amplitude das mensagens. O surf tem um apelo visual fantástico que nos permite petrificar o olhar de qualquer um com um slow de 240fps, mas é um desperdício não prestarmos atenção na riqueza de histórias que podem ser exploradas ali.

Há quem não goste, mas os trabalhos que eu mais admiro são aqueles que encantam surfistas e não surfistas de igual maneira. Aí vamos desde Endless Summer, passando pelos filmes do Cyrus Sutton até os novos Ripple Effect, ou Let's Be Frank. No Brasil as últimas produções do Grupo Sal como 70 e tal e 80 e tal e Hidrodinâmica são boas referências nesse quesito. Em geral sou apreciador de um bom roteiro

Acho que a arte tá na própria vida, nunca fui muito colecionador de um formato específico. Acho legal quem brinca de dar novos sentidos as coisas e traz emoções à tona. Aprecio muito o humor, a arte fazer cócegas no cérebro dos outros. (Mr.Bean, Jim Carrey, Seth MacFarlane, Jimmy Fallon) Na parte mais visual gosto dos desconstrutores: (Van Gogh, Basquiat, Hundertwasser) Na parte auditiva dos mais clássicos, que me emocionam (Rolling Stones, Peter Tosh, Alabama Shakes, Cachorro Grande). Mas to muito feliz que cada dia surge uma coisa nova boa. A arte tá cada vez mais democrática, pulverizada e acessível. Assim a inspiração fica cada vez mais presente!




Zuch: Olha, eu sou meio nerd do surf, gosto muito de ler e consumir conteúdo, então um dos meus grandes ídolos é o Matt Warshaw. Pra mim esse cara é muito subestimado. Ele foi o cara que pegou e disse ‘o surf importa’ vou dedicar minha vida a escrever essa história direito. Mas além dele, tem outras pessoas que me inspiram muito como o Cyrus Sutton, um cara de muito talento que tem uma visão clássica e uma abordagem atual; o (John) Severson, que criou a porra toda; Peter Hamblin, o cara que fez “The Ripple Effect”; Allan Weisbecker, o cara que escreveu “In Search of Captain Zero” (que é o ‘On The Road’ do surf pra mim); da turma nacional a turma do barulho Pepê, Júlio Adler, Marcelus (Viana) e (Rafael) Mellin pelo conjuntos das obras; no Youtube o Casey Neistat e o Jason Silva, caras que tem canais muito relevantes. Mas, por mais clichê que isso soe, eu admiro e me inspiro nas pessoas que tem a coragem de fazer as coisas com amor e encontram meios de fazer isso dar certo (conceitual e financeiramente).




5 - Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum novo projeto ligado ao surf o que você faria?

Duda: Pagaria as dívidas do Surfari e assim continuaria com a empresa! ahhaha brincadeira. Reformaria um ônibus para que fosse um escritório móvel, com ilha de edição, espaço para um palco em cima, um bar em um dos lados. Fecharia com grandes amigos que produzem conteúdo, outra galera que sabe como ativar um evento e alguns surfistas. Viajaria por toda a costa brasileira novamente ficando uma semana em cada lugar chave. Chegando nesse local, promoveria campeonatos de surf para crianças e para a mulherada, promoveria um evento de integração, uma mostra de cinema e um minidoc sobre a cena local.

Encerraria nossa passagem por lá com uma grande festa e partiria para a próxima praia! Verba infinita? Transforma o ônibus em um veículo anfíbio transatlântico e vamos aplicar a mesma dinâmica pelo mundão! hhahah




Zuch: Eu faria novamente o Reconhecendo o Surf, mas com mais tempo e mais recursos. Na minha visão, esse projeto tem um grande potencial para fazer do Brasil a maior potência mundial do surf como esporte e como cultura. O que precisaríamos fazer era interligar mais a rede que o surf já é. Teríamos que dialogar com o governo, as associações, as federações, as revistas, os sites, os fotógrafos, os filmmakers, os atletas, as marcas, os lojistas etc.

Se eu tivesse recursos ilimitados, iria estudar a fundo como interligar todas as partes. É difícil, mas não acho nem de longe que seja impossível. Pra mim, a conclusão é que todo surfista quer ter recursos, pra no fundo ter mais tempo pra surfar, então se a teia fosse organizada, todo mundo teria mais recursos pra investir o seu tempo no que mais gosta, que é pegar onda.




foto de abertura: Caio Guedes


Shapes & Fia.

7 de fevereiro de 2017



A nova websérie da Scult Filmes, traz o mestre Fabio Gouveia explorando a essência da diversão ligada ao surf. Na sua paixão por fabricar os mais diferentes tipos de pranchas e surfar todo tipo de onda, Fia demonstra que "Não existe onda ruim, existe prancha errada".



Dividida em cinco episódios, a série surgiu a partir da produtiva parceria que criei com Fabinho ao longo dos últimos anos, desde que gravamos uma entrevista em 2011 para o documentário "Pegadas Salgadas". Depois disso vieram as sessões de surf para o filme "A Pedra e o Farol" em 2014 e 2015 e uma longa entrevista que rendeu um perfil numa das últimas edições publicadas na revista Fluir.
 
Assim, eu me vi com um rico arquivo inédito de depoimentos e imagens de Fia e propus criar uma narrativa biográfica mostrando a nova vida dele como shaper, reunindo algumas das muitas imagens  de seu arquivo pessoal e duas novas gravações específicas para o projeto.



Deste processo nasceu a websérie Shapes & Fia. que será lançada em episódios semanais aqui no Surf & Cult, reunindo muita informação sobre as pranchas e suas funcionalidades, temperadas com a descontração característica de Fia e o seu talento único nas ondas.

 





5 Pra 1: Christian Herzog

6 de dezembro de 2016


Não é difícil saber onde encontrar Christian Herzog em Floripa. Surfista e fotógrafo dedicado, ele bate ponto quase que diariamente entre o Campeche e o Riozinho, onde, ao longo dos últimos anos, vem colecionando muitos tubos e belos registros das ondas e das paisagens destes picos icônicos do surf na Ilha de Santa Catarina

Há tempos admiro a qualidade dos registros de Herzog, seja em sua busca pela luz mágica dos primeiros raios de sol nas fotos aquáticas, ou na combinação do visual das ondas com os demais elementos da paisagem, onde o surf se ume à cultura da pesca e formação rochosa da ilha do Campeche. Nesta entrevista ele conta um pouco sobre as suas motivações e impressões ligadas ao surf e fotografia: 



1 - Me conta como começou o seu envolvimento com o surf e com a fotografia e em que momento eles se uniram?

Minha primeira prancha foi uma Gordon Smith monoquilha removível, que ganhei de presente de minha mãe em 1986, aos 10 anos de idade. Meu primeiro surf com ela foi na praia dos ingleses, no verão de 86/87. Depois disso foi "amor a primeira vista". Como eu já andava de skate, o surf foi o esporte que eu praticava nas férias de verão quando eu vinha para Florianópolis ficar na casa de minha vó no Campeche. Eu sempre gostei de fotografia, e fotografava uma vez que outra de dentro e fora da água com a Kodak Sport, uma câmera descartável de filme.

Quando me mudei para Florianópolis em 2001, meu pai me deu uma Canon T50 de lente intercambiável, o que mudou minha visão da fotografia e fez eu avançar para o caminho da fotografia profissional, que na época ainda era com utilização de filmes diapositivos, também conhecidos como Cromos. Como eu vim para Florianópolis para mudar meu estilo de vida e surfar o máximo que podia, comecei a registrar alguns lineups e surfistas sempre que eu não estava surfando.





2 - Você faz um trabalho constante de documentação das ondas e paisagens da praia do Campeche. O que mais te atrai neste pico e o que te motiva a seguir produzindo “variações do mesmo tema”?

O que me atrai no Campeche é a ligação que tenho com esta praia desde os anos 80, quando vim para cá pela primeira vez. Eu já conhecia as outras praias de Florianópolis, mas sempre gostei da quietude e mar bravio daqui. A ilha do Campeche é outro elemento que atrai, pois não é qualquer lugar do mundo que você tem uma ilha a uma distância relativamente perto (1.800m mais ou menos) e com natureza tão exuberante. Aqui cada dia é um dia, então é difícil enjoar já que um novo dia pode significar a melhor foto de sua vida.



3 - Quais as suas lembranças mais marcantes de sessões de fotos e de surf no Campeche? Num dia clássico, como você lida com o dilema de querer surfar e fotografar ao mesmo tempo?

As lembranças marcantes que tenho são com relação ao passado. Florianópolis em si era um lugar bem isolado, com poucos habitantes. E o sul da ilha era o lugar com menos pessoas devido ao acesso ainda ser por estrada de chão batido. A única via asfaltada era a Av. Pequeno Principe. Nos anos 90, entre 1996 e 1998, lembro de ondas excelentes devido a uma combinação de bancada, direção de ondulação e vento. Depois disso, em 2005 e 2006 lembro também que deu outra combinação fantástica de direção de swell e vento, com um dia mais clássico que o outro.

Herzog não abre mão do surf. foto: Guel Varalla

O dilema de surfar vs. fotografar sempre existe, e logo que comecei a fotografar eu fazia o seguinte: acordava muito cedo para ser o primeiro a entrar na água. Depois da sessão de surf que durava no máximo 1:30h, eu saía da água e ia fotografar. Hoje em dia, após alguns anos de fotografia, já fico mais tranquilo em relação a isso. Eu sempre fui bem "fissurado" no surf e atualmente estou mais surfando que fotografando, mas tento não perder os registros daqueles dias grandes e perfeitos, os dias épicos e históricos.



4 - Quais são as tuas maiores inspirações no surf e nas artes?

Eu tinha 10 anos em 1986, e uma das primeiras revistas que comprei foi a Fluir edição histórica com a capa de prata, onde tinha muitas fotos do Hang Loose que rolou na Joaquina. Eu cresci vendo surfistas brasileiros como Fabio Gouveia, Teco Padaratz, Tinguinha Lima, Daniel Friedman, Taiu Bueno, Ricardo Bocão, Cauli Rodrigues, Roberto Valério, entre outros, e eles eram minha inspiração, assim como os gringos Tom Curren, Tom Carroll, Mark Occhilupo, Derek Ho, Shaum Tomson e toda a geração que sucedeu eles.

Eu sempre ficava vidrado no estilo e nas manobras desse pessoal. Era muito inspirador para um adolescente skatista e surfista como eu. Nas artes eu não tenho ninguém especifico, mas sempre me chamou atenção nos trabalhos feitos com o coração, que se destacam pela persistência de atingir algum resultado satisfatório para o autor, o que acaba refletindo e resultando em algo deslumbrante aos olhos do espectador, seja ele o autor ou não.



5 - Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho artístico ligado ao surf o que você faria?

Boa pergunta, nunca parei para pensar nisso. Talvez levar pessoas carentes ou que moram longe da costa para poder curtir um dia inteiro na praia e tentar conscientizar todos da importância que os oceanos exercem na vida da terra. Todos somos um, e todos dependem de um planeta livre de poluição, principalmente os micro plásticos que se transformam do lixo e acabam sendo ingerido pela vida marinha a acabam afetando toda a cadeia de reprodução da vida.



Conheça mais sobre o trabalho de Christian Herzog clicando aqui




5 Pra 1: Fabrício Flores Nunes

22 de novembro de 2016




Idealizador do festival Lagoa Surfe Arte (LSA), o gaúcho Fabrício Flores Nunes é um homem cheio de ideias. Mestre e doutor em Aquicultura, ele mora em Florianópolis desde 1993 onde divide a sua energia criativa e realizadora em várias frentes, como a fabricação de pranchas alternativas Sea Cookies, os estudos superiores sobre contaminação ambiental e as atividades culturais ligadas ao LSA.

Após o sucesso da segunda edição do evento, que promoveu a exibição de filmes no cinema do CIC e encontros ligados à cultura surf na Lagoa da Conceição, ele tirou um tempo para falar sobre estas realizações e a sua relação com o surf e as artes:



 
1 - Fale um pouco sobre o Lagoa Surfe Arte e a sua avaliação desta segunda edição?

A expectativa desta edição foi suprida com maestria. Deu tudo certo! Esperávamos nosso público e fomos além. Atingimos com o festival de cinema, cinéfilos de plantão que tiveram contato pela primeira vez com a produção cinematográfica de surfe e elogiaram muito a nossa selação. O festival recebeu inscrições de filmes de cinco países e, de dentro do Brasil, mais de seis estados tiveram representantes. Fora isso, alunos do RS e PR para o curso de pranchas e muitos interessados no conteúdo vieram aproveitar pelo menos um dos dias de programação. O sábado com palestras, vernissage e pranchas de surfe também foi outro ponto alto do LSA’16. O debate foi rico e a palestra do Adrian Kojin, fantástica.

O Lagoa Surfe Arte de 2016 termina como o único festival de cinema surfe que exibe seus filmes dentro de um cinema, já é apontado como um dos mais conceituados dentro do surfe, que congrega todas as artes visuais possíveis dentro do mesmo espaço e que ainda promove debates e palestras com temas que são muitas vezes maiores que o próprio surfe em si. O Lagoa Surfe Arte é vitrine para a cultura surfe, com arte e história, e serve também para mostrar para a sociedade que somos mais do que uma simples diversão de beira de praia. Temos um conteúdo riquíssimo, existe muito que mostrar para o público sobre a nossa verdadeira essência. Precisamos ocupar esse espaço para revelar, divulgar e manter nossa história. Em Santa Catarina são quase 50 anos de história do surfe que precisa ser celebrado e dado o devido destaque.





2 - Como você enxerga a relação do surf com as artes e o conceito de “surf art”? Como você trabalhou isso dentro da curadoria do LSA? 

Me parece que ainda anda em paralelo. São raríssimos os surfistas que são sensíveis à arte, que possuem uma tela original em casa ou uma cópia registrada na parede da sala. O surfe tem um viés crescente como um objeto mercadológico, o que deve aumentar ainda mais agora se tornando um esporte olímpico. Eu comparo o surfe à dança, suave e fluido, equilibrado e contínuo. O surfe não é fragmentado, é plástico. A arte é o que ela consegue atingir. Depende de referências. Com o Lagoa Surfe Arte quero que a vitrine de arte/surfe transgrida a comunidade surfística. Queremos apresentar para a comunidade sensível ao belo, às artes, o conteúdo que temos. Talvez esse caminho seja mais fácil para ter um respaldo da comunidade do surfe.

O Lagoa Surfe Arte é também um espaço de aprendizado, de apresentação de referências. A arte óbvia não tem muito espaço dentro do evento. Queremos buscar a arte verdadeira, batalhar pela valorização da expressão pessoal de cada um que traz a sua paixão pelo mar para seu material de trabalho, sejam eles pincéis, canetas, madeira ou plaina. A arte plena, livre, com movimento e colorida. A arte surfe merece paredes nas melhores galerias do mundo e um dos nossos objetivos é poder revelar o mundo ao artista, sendo muitas vezes sua primeira exposição a participação no LSA. A arte no surfe é livre, ainda com raríssimos espaços como este que estamos trabalhando para se firmar
.

Quanto à curadoria, é um garimpo. Estamos sempre atentos, seguindo artistas pelo mundo usando as redes sociais, buscando referências contemporâneas em outras exposições e instalações, assistindo canais com conteúdo como o Arte1, lendo e fazendo cursos de capacitação para apurar o olhar. Existe muito que fazer pelo surfe e as possibilidades de como fazer  e apresentar isso ao público são inspiradoras.





3 - Conte sobre a sua experiência como shaper, a criação da Sea Cookies e o que te inspira dentro deste universo de fabricação de pranchas?

Engraçado isso, mas eu sempre fui shaper. Sabia que seria shaper em algum momento. A marca “Sea Cookies” já existe desde 2000 desenhada no meu violão, mas foi virar seda de prancha apenas 14 anos depois. Todas as pranchas que eu encomendei eram apenas desculpa para adentrar a fábrica e ver como era fazer uma prancha. Esse universo sempre me encantou muito.

Meu pai e meu avô materno me introduziram no mundo das ferramentas muito cedo e hoje trabalho praticamente com todas elas e com qualquer material. Particularmente gosto muito de trabalhar com madeira e já fiz algumas coisas. Não consigo passar por uma pilha de entulho sem olhar e quem sabe resgatar um pedaço de material. Durmo em uma cama que fiz de madeira de demolição, em casa tenho mesa, estante, bancos, horta, tudo feito de madeira. Sempre gostei de trabalhos manuais. Especificamente sobre pranchas, sempre lia muito antes de encomendar uma nova ou comprar uma usada.
 

Sempre gostei de experimentar novidades, testar. Faço isso há uns 20 anos pelo menos. Gosto de estudar sobre construção naval também, principalmente estudar designs de regatas, "planing hulls"... Em 2009 conheci um shaper carioca que topou passar meus desenhos para o computador e usinar meus projetos desenhados no papel, digitalizados e enviados por email. Foram três projetos e todos eles funcionaram. Pensei que sabia projetar uma prancha!

Eu comprei meu primeiro bloco depois de visitar um amigo que estava desgastando as espumas na churrasqueira da casa dele e resolvi visitá-lo finalmente. Quando eu vi até onde ele tinha ido, vi que eu poderia ir além e fui comprar um bloco pra me arriscar finalmente. Naquele exato momento percebi que poderia fazer uma prancha também. Não sei se ele ainda compra blocos e shapeia, mas foi a fagulha que eu precisava para me arriscar nesse mundo.




Com toda a experiência que tinha com outros materiais, tinha a segurança de me arriscar com PU ou EPS sabendo que teria que “escutar” o que o material que iria usar pela primeira vez tinha pra me dizer. Ia fazer a minha primeira prancha lá na casa do meu amigo, mas quando fui orçar a laminação e o laminador escutou essa história toda, me ofereceu uma sala que ele finalizava os shapes usinados dele para trabalhar. Era melhor que a churrasqueira e na frente da minha casa: eu tinha um shaperoom para usar. Sem grana para comprar uma plaina elétrica, comprei o básico (régua template, plaina manuais para desbastar a longarina, surform, lixas de madeira), recuperei meus lápis e comprei alguns outros novos, peguei meus rabiscos e ideias no meu caderno Moleskine genérico, troquei os filtros de uma máscara 3M que já tinha e pedi umas dicas para alguns amigos shapers.

Levei umas duas semanas shapeando a primeira prancha, a “Pumpkin Seed”, uma 5’10” singlefin. Na época estava me recuperando de uma torção no joelho e voltar ao surfe com uma prancha feita por mim foi indescritível. Até hoje, a sensação é presente. Lembro com clareza a primeira onda da primeira prancha que fiz. Fantástico. Depois dessa fiz mais uma sem uso de energia elétrica, toda na lixa, uma assimétrica para goofies, sendo 6’1” x 21 ¾” fish twin de frontside e 5’9” x 19” round quad de backside. Batizada inicialmente de “Crooked”, ganhou o nome definitivo de “Dr. Freak” depois de passar 14 dias em Lobitos (Peru) e se tornar a melhor prancha da viagem. Depois dessas duas recebi minha primeira encomenda, uma mini simmons 4’11” e tive que comprar uma plaina.



Fiz até hoje umas 15 pranchas, apenas para amigos próximos. Minha paixão e meus questionamentos hidrodinâmicos me afastam do que o grande mercado consumidor quer adquirir. Faço pranchas para quem quer se divertir no mar, polir o surfe, reencontrar a alegria de surfar, de quem está cansado em tentar ser quem não é e aceitar se descobrir. Gosto de shapear biquilhas, monoquilhas, finless... quero em breve fazer uma bonzer pra mim.

Minhas pranchas sempre foram mais largas que o normal. Nunca entendia, quando tinha uns 18 anos (1996), as pranchas tinham que ser estreitas. Borda fina, 18” de meio, rockers exagerados, nunca me conquistaram. Todos meus amigos queriam ser o Kelly Slater e eu deixava crescer o meu cabelo porque queria ser o Robert Edward Machado! Pedia pranchas mais retas, com no mínimo 19 ½” de meio e já com mais de 1,8m de altura minha prancha era uma 5’11. O nome “Sea Cookies” vem daí, das minhas pranchas e percepção de que esse é o caminho. Pranchas largas, como umas bolachas. Pranchas pro mar, bolachas do mar. Pranchas com uma boa remada, com facilidade de entrar na onda, otimizam o tempo do surfe, aumentam teu quantitativo computando mais ondas por sessão, aumentando a diversão e, se você surfa muito mais e cansa menos, é muito melhor.


O que me inspira no universo da fabricação de pranchas é buscar fazer uma prancha que seja a mais fluida possível, proporcionando uma velocidade perceptível de quem usa, tornando o surfe mais recreativo do que esportivo. As Sea Cookies pretendem ocupar a sala de estar ou jantar de quem as adquire, por serem esculturas funcionais extremamente bem acabadas, como uma peça de arte. A prancha de surfe da grande maioria dos surfistas fica mais tempo fora da água do que dentro dela. Então porque guardá-la na garagem ou no homebox? Quem tem uma Sea Cookies, tem arte no deck e inovação e engenharia no bottom.




4 -  O que o surf te ensinou?

Eu ganhei meu primeiro skate aos 5 anos, raspei a primeira parafina de uma prancha com 8 e imbiquei na primeira onda que tentei surfar com a prancha do meu primo nesse mesmo verão de 1987 em Quintão, RS. O surfe já se apresentava como uma escola pra vida. Comecei a surfar quando cheguei em Florianópolis, em 93, com 15 anos, apesar de ter uma prancha prometida para meu 12° aniversário - dos 10-15 morávamos em Brasília e pouco poderia fazer com uma prancha no meio do Cerrado.

Desde que cheguei em SC, sempre fui um surfista de final de semana, visto que morava no continente, sempre tive que estudar e logo depois comecei a trabalhar. Tive a certeza que não seria atleta depois de umas duas baterias em campeonatos que me inscrevi. Era muito nervosismo e pouco prazer, e me afastar do sentimento de diversão nas ondas me fez ver que não era meu caminho.

Os anos foram se passando, algumas pranchas encomendadas e fui observando que meu caminho não era dentro da linha radical. Minha diversão está no deslizar, no correr a onda, na conexão... poucas manobras me dão mais prazer do que um longo floater, uma rasgada perfeita de backside ou um cutback de mini simmons. Sou feliz surfando ondas de 1 metro, o melhor humano que vive dentro de mim se sobressai depois de uma boa sessão de surfe em um mar de SE com vento O, melhor ainda se tiver chovendo. Sou um surfista à moda antiga, que senta na prancha para ver a onda inteira do amigo, que comemora junto a onda surfada até a areia.

O surfe ensina a observar o melhor momento para tomar as decisões e de cobra por elas. Por vezes cobra caro. Estar no mar é contemplar em poder raciocinar com calma, de costas pra terra onde tudo te espera, e literalmente desconectado dela boiando sentado esperando o próximo set, a próxima oportunidade. As ondas são únicas, é a natureza delas. As oportunidade também. Aprendemos a se posicionar no outside com tantos outros querendo o mesmo, e mesmo acontece no nosso cotidiano comum. O surfe ensina que o ônus e bônus é quase um equilíbrio perfeito. O surfe acalma, lava a alma, reorganiza as ideias, fortalece, rejuvenesce, inspira. Eu não sei o que eu seria sem ter o surfe na minha vida.




5 -  Se você tivesse uma verba ilimitada para produzir algum trabalho artístico ligado ao surf o que você faria?

Investiria no próximo formato do Lagoa Surfe Arte em 2017 (risos). 
Mas, limitando aos trabalhos artísticos, faria algo que registrasse a história do surfe de forma mais jornalística. Gosto imenso de documentários e livros e acho que dá pra fazer as duas coisas em comunhão. Creio que produziria algo que unisse uma forma de expor para a comunidade a riqueza que temos de história e pessoas envolvidas no que hoje se tornara um esporte de mídia e patrocínios milionários, mas que ainda se encontra marginalizado e sem o apoio ideal. O formato de 2017 tá nessa direção!



Créditos das fotos: divulgação LSA, Sea Cookies e acervo pessoal



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