BB Style

24 de março de 2011



Quem frequentou uma praia surfável no Brasil na segunda metade da década de 80 certamente presenciou a explosão do bodyboarding como esporte profissional. A indústria de marcas, campeonatos, atletas e veículos de mídia envolvidas com esta atividade foi tão intensa na época, que chegou a rivalizar diretamente com a estrutura já consolidada em décadas de surf convencional.

A popularização das pranchas em que o surfista pegava onda deitado facilitava a vida de iniciantes de todas as idades, habilidades e sexo, promovendo uma verdadeira invasão dos outsides do planeta, o que obviamente gerou tensões dentro d`água - e um preconceito, por vezes agressivo, dos antigos surfistas que passaram a ter que dividir as ondas com muito mais gente. Situado no meio do caminho entre o bodysurf e o surf de pé, o fato é que surfar deitado com a ajuda de pés de pato permitiu também a exploração de ondas mais extremas e tubos quadrados, praticamente insurfáveis no surf tradicional.


Thiago Villela

Mas passada a moda que durou até meados dos anos 90, o bodyboarding acabou não se sustentando como indústria a longo prazo e hoje sobrevive com uma estrutura bem mais modesta. Engraçado é ver que a fúria com que muitos atacaram a invenção de Tom Morey - eternizado nos célebres Morey Boogies - hoje faz pouco sentido diante de tantas outras modalidades derivadas do surf, como o tow-in, o stand-up-paddle e o kitesurf que democratizaram ainda mais as formas de se pegar onda nos outsides do Brasil e do mundo.

Recentemente troquei um ideia sobre o assunto com o amigo Alexandre Iglesias, que nos anos 90 foi editor da Bodyboarding Style, principal revista voltada exclusivamente ao assunto já publicada no Brasil. Hoje dedicado a um interessante projeto de inclusão social via audiovisual, Alexandre repassou ao Surf & Cult alguns belos registros da revista e ofereceu a sua visão sobre os caminhos do bodyboarding ao longo dos tempos.


Capa da edição 24 - foto Gordinho

1 -Fale um pouco sobre a história da revista, a equipe de produção e os momentos mais marcantes ?

A primeira edição da revista saiu em 1991 e publicamos até o fim da década de 1990. Paulo Kola, um fotógrafo que conheci em uma viagem ao Peru me chamou pra participar do projeto, e assim tudo começou. Ele era formado em desenho industrial, mas eu só entendia de bodyboard. As primeiras edições foram um aprendizado de todo o processo, desde gráfica, ao fotolito, qualidade de fotos e do que era um bom design. Nesta época não tinha digitalização de foto. Prova de prelo, slides e outros ítens hoje em desuso faziam parte do processo.

A partir da quinta edição passei a tocar sozinho a revista, mas logo depois dividi um espaço na Barra da Tijuca com os designers Gustavo Bomba e Marcelus Viana. A partir daí, finalmente consegui que o design da revista tivesse a mesma qualidade dos textos e fotos. Neste espaço tocávamos a Bodyboarding Style e o Wet Paper.

Todos os principais fotógrafos do Brasil e muitos do exterior contribuíram com a revista, alem disto muita gente teve a primeira oportunidade de trabalhar na BB Style. A primeira viagem internacional do Fábio Minduim foi para uma matéria nossa no México. Mas a revista cresceu mesmo em numero de páginas e tiragem em 1996, quando o Francisco Diegues entrou organizando a casa e o Xandão Barros vendia os anúncios. Chegamos a imprimir 30 mil exemplares na Argentina, nesta época eles tinham um preço imbatível, e a revista foi distribuída por lá, todo Brasil e Portugal.


Léo Gomes, abertura de matéria edição 21 - foto: Dean Wilmot / design: Bomba

2 - Como você analisa a explosão do Bodyboarding no final dos anos 80 e porque ele entrou em declinio nos anos seguintes em termos de visibilidade e investimento?

Simplificando, o bodyboarding aconteceu no fim dos anos 80 porque a Rede Globo colocava o circuito brasileiro no Esporte Espetacular, que ia ao ar logo depois do Fantástico. Então quem patrocinava o campeonato anunciava no Esporte Espetacular e a roda ia girando. Quando tudo isso acabou, não existia um plano B. O esporte só sobreviveu na década de 90 graças ao títulos mundiais de Guilherme Tâmega e das meninas. Foi neste ultimo suspiro que a BB Style teve o seu auge, tanto que em 1997 e 98, conquistamos o prêmio de melhor cobertura do circuito mundial.



3- Qual a sua opinião sobre a situação atual do bodyboarding no Brasil e no mundo em relação aos demais esportes aquáticos com prancha?

Eu não acompanho mais o bodyboarding e devem ter uns 8 anos que eu não tenho uma prancha nova. Nesta época me dediquei a uma nova profissão e à minha família. Foi um processo de reestruturação no qual o bodyboard não fez parte. Estive pouco tempo dentro d’água e até peguei mais onda de surfe do que bodyboard nesta época, pois no surfe não busco a alta performance, então qualquer mar valia pra estar na água. Estar no rip exige abrir mão de muita coisas.


José Otávio em Itacoatiara, capa da edição 30 - foto: Gustavo Camarão

4 - Na sua opinião, quais os melhores picos para a prática do bodyboarding no Brasil e no mundo?


As melhores ondas que surfei no Brasil foram em São Conrado, Itacoatiara e Postinho da Barra. No exterior em Pipeline e Soup Bowls.

5 - Resgate um pouco a tua trajetória pessoal com o bodyboard. Quais as melhores lembranças que você tem relacionadas a esta atividade?

A minha trajetória foi a de um cara que não tinha o menor talento para sobreviver de competição e que para poder estar dentro d’água sustentou por 10 anos o sonho de uma revista.


Pablo Rodrigo, Posto 5 Copacabana - foto: Beto Paes Leme

6 - Conte um pouco sobre os teus trabalhos audiovisuais com esporte após o fim da revista?


Lancei dois vídeos. Um que tinha o nome da revista e um outro cobrindo as etapas do circuito mundial de 2002/03, que deu a Guilherme Tâmega seu último título mundial.


Capa da edição 21 - ilustração: Marcelo Gemmal / Design: Gustavo Bomba

"A tipográfia "Aventura" feita de cola colorida, bons tempos! Só na Style a gente tinha essa liberdade toda! Gemmal arrebentou!"- Gustavo Bomba

7 - Depois da explosão do bodyboard surgiram muitos outros esportes com prancha que também invadiram os line-ups de forma até mais agressiva, como o tow-in, kitesurf e o stand-up paddle. Como você enxerga essa suposta "rivalidade" dentro d`água entre as modalidades? Melhorou ou piorou ao longo do tempo?

Eu acho o surfe o esporte mais versátil de todos estes que você citou, pois ele é funcional em vários tipos de onda. Então ele é o mais incomodado. Eu e meus amigos superávamos toda esta rivalidade buscando as maiores e mais tubulares ondas. Ondas que a maioria absoluta dos surfistas não se sentia confortável em surfar. Com isso ganhávamos respeito. Na maioria dos mares que marcaram a minha memória, nem éramos incomodados. Então é o caso de cada um ter a consciência de qual a escência do seu esporte. O que incomoda é gente sem noção e mal educada. Quando se está em alto nível, a tendência é que todos se respeitem.


Fábio Aquino, cacimba do Padre, capa da edição 26 - foto: Clemente Coutinho

Para saber mais sobre a revista, procure a página da BB Style no facebook.
Foto de abertura: Guilherme Tâmega
na edição 27

4 comentários:

daniel caon alves disse...

Muito boa e interessante esta entrevista, me lembrou dos velhos tempos de fins dos 80 até meados dos 90, quando eu comecei a pegar ondas com uma BZ. Foi uma febre geral a dos moreys aqui no Brasil, gerando até campeão mundial. Como foi dito, essa onda meio que acabou passando - não para a nova geração, é claro -, e eu mesmo fui para o pranchão, mas qualquer coisa que pegue onda e seja na remada me interessa, inclusive jacaré! O importante é estar na água! Valeu por recuperar a nossa memória! Boas ondas!

MARCELO PIU disse...

Olá, por acaso cheguei a esse site. Muito rever as palavas do Iglesias, só queria resgistrar que faltou meu crédito para a foto do THIAGO VIELLA em São conrado, CAPA DE UMAS REVISTAS.
Forte abraço. MARCELO PIU

carlos carlosebob disse...

ÓTIMA REVISTA, SAUDADES, SAUDADES DA DECADA DE 90, PENA QUE O BBOARD NO MUNDO A CADA DIA ENTRA EM DECLINIO, OLHEM PARA O CIRCUITO MUNDIAL, NEM MESMO O ORGÃO MAIOR DO ESPORTE, IBA, POSSUI CACIFE PARA TOCAR O CAMPEONATO, PENA!

carlos carlosebob disse...

NAO CONSEGUI VER AS FOTOS!!
NAO AXEI A PAGINA NO FACEBOOK

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