Ecos de Sustentação

3 de dezembro de 2009



Divulgar o trabalho realizado por pessoas como João Malavolta a frente da Ecosurfi é uma forma de contribuir para ampliar o debate e estimular ações voltadas para o desenvolvimento sustentável em torno do surf.

Não é novidade para ninguém o fato de que a indústria produtiva de bens de consumo diretamente relacionados ao surf - como pranchas, roupas de borracha, decks e parafinas – produzem resíduos altamente poluentes e não possuem uma cadeia produtiva minimamente comprometida com o uso consciente dos recursos naturais.

Também não é nenhuma novidade que algumas organizações internacionais como a Surfrider Foundation e Sea Shepard conseguiram ao longo dos anos mobilizar surfistas e amantes do oceano em torno de uma conscientização sobre a necessidade de ações concretas para preservar as praias e os oceanos para as futuras gerações.


Leandra Gonçalves / Greenpeace

Aplicando a máxima de: “pensar globalmente, agir localmente” achei pertinente promover uma maior divulgação das iniciativas relacionadas a esse tema realizadas em solo brasileiro - que felizmente vem se multiplicando por todo o litoral - para justamente estimular um maior intercâmbio e a possível união destes agentes sociais em prol de mudanças concretas na mentalidade de todos aqueles envolvidos com o surf.

Neste cenário, o trabalho realizado pela Ecosurfi no litoral paulista merece destaque pelo grau de comprometimento e evolução alcançados ao longo dos anos. E se a consciência ambiental em toda a cadeia produtiva do surf é algo ainda muito embrionário com tantas frentes de trabalho a serem atacadas, e muita controvérsia em meio ao ceticismo de alguns e o “alarmismo ecológico” de outros, nada mais pertinente do que começar esta discussão do zero e elaborar estratégias consistentes e factíveis.

Assim, na promoção de debates sobre o real comprometimento que a busca pela sustentabilidade requer de cada pessoa relacionada de alguma maneira com o surf, a Ecosurfi presta a sua valiosa contribuição para a preservação dos oceanos e da natureza de uma maneira geral. Na entrevista a seguir, João conta um pouco da história e ações da Ecosurfi ao longo dos anos:


1 - Fala um pouco sobre a trajetória da Ecosurfi desde a sua fundação?

A Ecosurfi nasce com o propósito de ressignificar o sentimento dos surfistas pelo respeito ao meio ambiente, ou seja, levantar questionamentos sobre o quê de fato é ser surfista e como se dá essa relação com a natureza, ou melhor, o quê constitui essa relação?

Para tanto começamos nossas atividades na cidade de Itanhaém, onde esta localizada a nossa sede. No início focávamos a problemática da poluição nas praias e realizavamos muitos mutirões para combater essa forma de degradação paisagística e ambiental. Éramos muito bons na mobilização de pessoas, voluntários. Íamos para o corpo-a-corpo movimentando a cidade com essas ações, porém ainda éramos pouco esclarecidos sobre o quê de fato era uma organização não governamental, aspectos legais, parte administrativa entre outros, isso tudo em meados do ano 2000.

Tínhamos muitas pessoas envolvidas que faziam parte, só que entendíamos que precisávamos de indivíduos que tomassem parte dos assuntos de importância e interesse da organização. Era necessário buscar conhecimento das melhores formas de atuação em projetos, gestão administrativa, relação com o público, tudo isso de uma maneira que pudéssemos planejar melhor a estrutura da Ecosurfi para potencializar as suas atividades.

Bom, mas isso demorou oito anos para acontecer. Conseguimos manter a unidade de um grupo de aproximadamente 10 pessoas e alguns voluntários, que acreditam até hoje na “alma” da entidade, e que foram buscar “beber” de outras fontes de conhecimento para poderem trazer para dentro da organização e praticar na gestão da mesma.



2 - Quais as principais atividades/conquistas da ONG e os planos para o futuro?

Acho que uma grande conquista foi pautar dentro dos processos de educação socioambiental no Brasil, o “protagonismo” dos surfistas numa perspectiva de segmento social que tem como seu bem maior, a saúde física e mental, ligada a uma atividade esportiva, que depende de um espaço natural para ser praticado, logo se tornam responsáveis pelo cuidado desse espaço.
Outro ponto fundamental é a participação da Ecosurfi em diversos colegiados e redes sociais, como o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Itanhaém (Comdema), Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA), Comitê Difusor da Carta de Responsabilidades Humanas (CRH), entre outros.

A participação nesses espaços que discutem políticas publicas foi e é uma das nossas “escolas”, pois quando começamos a nossa participação pouco entendíamos desses processos, que, no entanto são muito significativos, pois neles são tratados temas que interferem diretamente na vida das pessoas, como, formas de planejamento da gestão costeira, gestão dos recursos hídricos, metodologias político-pedagógicas de educação socioambiental etc.

Nessa busca pelo conhecimento fomos entender o que é o terceiro setor, e como as instituições se organizam para “sobreviver” atuando nele. Desta forma com a experiência adquirida e um bom problema para enfrentar, que é o desafio de enraizar praticas pró-sustentabilidade no surf, ficou fácil montar um conceito institucional, que passa pela Missão da entidade, Visão de Futuro, Princípios, Valores, Ecomandamentos e a forma Como Atuamos.

Tudo isso se faz necessário hoje, por que estamos conseguindo aprovar alguns projetos em Fundos de financiamento público, e trabalhar com dinheiro do estado requer uma grande responsabilidade e organização, e temos interesse de ampliar essa captação com bons e inovadores projetos. Nosso plano para o futuro é levar a discussão da sustentabilidade de verdade dentro do universo do surf!



3 - A educação socioambiental deve estar inserida na atuação de todos os agentes da sociedade. Qual deve ser o papel exercido pelo governo, empresários de surfwear e surfistas em geral? Qual a responsabilidade de cada um neste processo?

Aqui na Ecosurfi quando pensamos Educação Socioambiental, a entendemos como um instrumento para a cidadania planetária, um mundo sem fronteiras com igualdade e justiça social para todas as espécies vivas.

A educação socioambiental traz consigo praticas de libertação, ou seja, ela emancipa os indivíduos para o pensamento critico e sistêmico, dessa maneira a organização social que vivemos poderia evoluir num sentido pleno, enaltecendo somente os valores morais fundamentais, e não esses valores “mundanos” que são praticados cotidianamente nesse mundo. Inverteríamos, ao invés de Ter pensaríamos em Ser!

Nesse viés de responsabilidade temos os princípios das Responsabilidades Humanas como norteador de atitudes, dos seres humanos para os seres humanos. Quanto ao governo, acho que eles possuem o dever legal, como esfera pública de oferecer dignidade a vida das pessoas.

Já as empresas de surf, ainda são vilões maquiados de bonzinhos. A idéia é simples: as empresas pegaram uma cultura, uma história, um estilo de vida e se apropriam dele. Toda essa trajetória milenar da relação do homem com o mar é transformada em um produto. Nossa sociedade está entrando num colapso socioambiental, onde um dos principais fatores disso é o consumo excessivo.

Vemos a cada dia oceanos, mares e praias do mundo sendo degradados por fatores climáticos e antrópicos. Logo penso, se o surf depende de um ambiente saudável para ser praticado, para co-existir e temos pessoas que só usam dessa imagem e não devolvem nada ao esporte, nem aos praticantes muito menos ao meio ambiente, eles estão na hora de acordar!

Hoje atribuímos a responsabilidades a todos os setores que estão inseridos no universo surf, a pergunta é: Você como surfista que responsabilidade pode assumir para o enfrentamento das mudanças socioambientais globais? Esse mesmo questionamento é aplicado a outros segmentos, que variam, desde as empresas de surf, mídia especializada, indústria de pranchas etc. Acredito que a responsabilidade, é a do "cuidar", no sentinto literal da palavra!



4 - A questão da poluição causada na produção dos equipamentos para a prática do surf é talvez o ponto mais negativo da relação desta atividade com o meio ambiente. Como voces enxergam o futuro desta cadeia produtiva? Quais as iniciativas mais relevantes sendo tomadas pela industria neste sentido? Quais os maiores entraves a serem enfrentados?

Sem dúvida é uma relação desastrosa, um esporte que vive do meio ambiente, ter o seu principal equipamento altamente poluente é uma incoerência.

Mas com os avanços tecnológicos sem duvida a solução chegará. Não sei se vai ser o equipamento ideal para um surf de alta performance, mas acompanho pela mídia algumas inovações interessantes, que variam desde a reciclagem de resíduos da fabricação de pranchas, até mesmo pranchas com zero impacto, ou mesmo selos Carbon Free entre outros.

Acho que são avanços muito importantes e significativos, mas ainda longe do ideal, pois, sabemos que sustentabilidade ambiental na indústria é cara, que os modelos alternativos requerem empenho e que as pessoas nem sempre optam pelas coisas trabalhosas que possuem significado sócio-sustentável.

O maior entrave é a cabeça das pessoas. Entendemos o que é certo e o que é errado, cada um escolhe o caminho. Se fosse em outra época poderíamos dizer que a desinformação seria uma barreira, mas hoje o acesso a ela está muito fácil.



5 - Muitas empresas de surfwear parecem lançar linhas de produtos com "apelo ecológico" apenas como ferramenta de marketing para "salvar a sua imagem". Como separar o "joio do trigo"? Quais são as empresas e organizações no Brasil e no mundo, que na opinião de vocês realmente fazem a diferença para construir uma cadeia sustentável no surf?

Concordo plenamente. Esse levantamento sobre empresas que se dizem “eco” ou não, ainda não possuímos, mas temos esse projeto para lançarmos uma pesquisa que busque retratar isso de maneira fidedigna.

Já existem alguns modelos desse tipo de trabalho na área da alimentação, ondeseparam em listas as empresas que se utilizam de transgênicos e as que não utilizam, tudo para alertar os consumidores, que são os verdadeiros reguladores do mercado.

No surf não seria muito diferente. Simplesmente faríamos uma pesquisa criteriosa para saber sobre as ações responsáveis e sérias das empresas, e analisaríamos o que é concreto e o que é marketing, desta forma o consumidor poderia ter o discernimento na hora de comprar, assim podendo escolher empresas realmente comprometidas. Mas esse é só um exemplo superficial.



6 - Em termos de consciência socioambiental o que diferencia os surfistas dos demais cidadãos? Qual o feedback que vocês recebem nos eventos que organizam?


Os surfistas tem esse lance da percepção, conhecem os ventos, as marés, luas, ondulações, animais marinhos, etc. Esse contato garante um re-encantamento humano, voltando o significado da vida, à comunhão com tudo o que está ao nosso redor. Desta forma coexiste um respeito por aquilo que se conhece, ou seja, só cuidamos daquilo que conhecemos. E os surfistas tem esse perfil, só precisam ser mais estimulados.

O nosso feedback nos eventos é a gratidão que as pessoas que participam emanam pela oportunidade que tiveram de estar nas ações promovendo um trabalho de ganho coletivo.

Links:
ecosurfi
surfsustentavel

2 comentários:

Tomas Oberst Kadgien disse...

O trabalho realizado por João é muito importante e interesante. São iniciativas como essas que ajudam a construir um mundo melhor e sustentavel para todos.
Parabéns Ecosurfi
Valeu Luciano por divulgar-los !
Abraço
Tomas

Helados de Tiaraju disse...

Ótima entrevista Luciano. Não sei se já leu o livro "Cradle to Cradle", que trata da cadeia produtiva atual, considerada "Cradle to Grave". Toca em vários assuntos interessantes, aqui abordados pelo João Malavolta e outros também muito interessantes.

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