Dias Ganhos

11 de agosto de 2010



Não, estas fotos não são do famoso pier de Huntington Beach, muito menos do lendário pico de Rincon na Califórnia.

Enquanto o surf vivia a sua celebração máxima como esporte em terras norte-americanas - com os melhores competidores do mundo se digladiando em busca de prêmios polpudos em diversas categorias no US Open, eu aproveitei o fim de semana do dia dos pais na casa do meu sogro, para encarar as ondas em um pier bem menos concorrido.



A Praia do Rincão é um balneário de veraneio ao sul de Santa Catarina, com uma faixa de areia dura a perder de vista, como as muitas outras paradas praianas desse imenso litoral reto que se estende até os confins do Rio Grande do Sul. Um cenário que oferece paisagens desoladas e desprotegidas, onde o céu parece te esmagar, tamanha a sua amplitude e as ondas podem ser detonadas a qualquer momento pelos fortes ventos que sopram de todos os lados.



Já tinha surfado algumas vezes no meio desta praia - que é cheia de perigosas redes de pesca fora de temporada de verão - mas, por pura preguiça de ter que pegar o carro nunca tinha me dado ao trabalho de conferir a chamada Plataforma Norte, construída nos anos 70 e que se tornou uma espécie de clube de pescadores nativos e point de surf da galera local de Criciúma.

Talvez pela empolgação de ver pela internet a molecada junior do Brasil - em especial o Alejo Muniz e o Miguel Pupo - detonando e voando sobre as merrecas do famoso pier californiano, me animei a encarar o frio e conferir o pier local, já que o vento resolveu dar uma trégua no fim de semana.




Para minha surpresa, poucos colegas resolveram encarar o mar de formação bem razoável, apesar da tradicional água fria e marrom, que não cativam muito o olhar. O resultado foram duas sessões de surf quase solitárias no lado sul das pilastras, que avançam sobre o mar aberto.



Na volta para o tão desejado chuveiro quente, o carro passeou pelas ruas cinzentas de uma cidade fantasma, com quadras e mais quadras de casas fechadas, que só ganham vida nas poucas semanas das férias de verão. Mas apesar do cenário um tanto depressivo, o sentimento de plenitude e satisfação teimava em falar mais alto.



Absorvo a leveza da realização plena tão comum ao pós-surf - um misto de relaxamento da mente com uma agradável fadiga muscular e o espirito leve. Ok, você vai dizer pelas fotos que o mar não estava lá essas coisas, mas quem foi acostumado a surfar em ondas frequentemente ruins, como a maioria dos brasileiros, talvez alcance mais facilmente esta capacidade de se divertir mesmo em condições bem adversas.



"E não apenas diversão que é o mais infantil dos prazeres, mas também algo ainda mais glorioso, algo que te empurre pra cima e te faça tão bem que no resto do dia ninguém arranca um sorriso debochado do seu rosto", como bem disse o Julio Adler em sua sempre saborosa Sopa de Tamanco, publicada na última edição da Hardcore.

Crédito fotos: Luciano Burin e Fernando Tenfen. Assista aqui a um um video de surf na plataforma norte do Rincão.

Um comentário:

daniel caon alves disse...

Bah, por um momento pensei que fosse a velha plataforma de Tramandaí, no Rio Grande do Sul. O espírito é o mesmo! A partir de Torres, o litoral gaúcho é feito todo dessa paisagem. Cresci surfando no RS, encarando o frio, mares mexidos, localidades desertas e o perigo das redes de pesca. Apesar de tudo, o pessoal do Sul não larga o surf de jeito nenhum! É muita determinação e amor ao esporte! Abraço!

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