Registros da Vila

27 de abril de 2010



Passei o último fim de semana na Praia da Vila em Imbituba assistindo as baterias do Billabong Pro, única etapa reunindo a elite do circuito mundial de surf aqui no Brasil.

Quem acompanha este blog bem sabe que não costumo publicar muito conteúdo sobre o universo competitivo do surf, mas decidi não me furtar de analisar livremente nestas linhas alguns aspectos que confirmam as percepções que tenho sobre o campeonato até aqui - e a luz de tantos outros que acompanhei ao vivo na areia da praia ou em transmissões na TV e internet.

Estimulado pelo desejo de ver alguns dos melhores surfistas do mundo em ação e diante da ameaça real de que o evento se mude para longe daqui nos próximos anos, peguei a estrada molhada em direção ao sul junto com o jornalista Antonio Zanella. Conseguimos umas credenciais para acompanhar o evento na área de imprensa, graças à revista Soul Surf, para a qual devo produzir alguma matéria de bastidores, fugindo da análise factual de baterias e resultados – mesmo porque, a matéria em questão só será publicada daqui a alguns meses, na edição de inverno da publicação.

Compartilho então com os leitores algumas impressões sobre esta experiência:

- No sábado, a fila para o credenciamento era enorme na parte da manhã. Pessoas de todos os estratos sociais buscavam alguma pulseirinha colorida que garantisse acesso à estrutura principal do evento. Naquele esquema tipicamente brasileiro de listinhas que separam a ralé dos semi-Vips e os super-vips, com áreas de acesso e circulação demarcadas, o credenciamento ficou ainda mais arrastado por conta daqueles que não foram contemplados com o bendito nome em uma das listas e tentavam convencer à organização a chamar fulano de tal para resolver o mal entendido. No fim das contas, parece que quase todo mundo conseguiu entrar, pois no sábado especialmente, tinha mais gente amontoada no lounge do campeonato do que na areia da praia e adjacências.


Slater perdeu na primeira rodada para Tiago Pires (ao fundo)

- Na entrada da área reservada aos competidores desembarca um atrasado Kelly Slater. Sua bateria começaria em poucos minutos e ele corre para pegar as suas pranchas no carro e se apresentar para entrar na água. Nisso, dois moleques de cerca de 18 anos imagino chegam com suas máquinas fotográficas. O mais animado se aproxima pedindo pra tirar a tradicional foto, mas o ídolo careca lança um olhar fulminante e sai em disparada dizendo em inglês algo equivalente a “Agora não dá amigo”. O rapaz sente-se insultado e não hesita em gritar: “Que cara marrento, tomara que perca a bateria!”. Dito e feito, Slater não se encontrou na água e foi para a repescagem. Além disso, perdeu um admirador que simplesmente não entende que existem momentos de tensão e concentração na vida de um atleta que devem ser respeitados.

- O dia se arrastou morno, com a Vila oferecendo ondas de até 1,5 metros, mas em séries demoradas e sem muita pressão, o que certamente não ajudou muito a empolgar o público. Olhando para o horizonte cinzento, fico lembrando daquele último dia do campeonato em 2003, quando, na minha opinião, a Vila proporcionou as melhores condições em todos estes anos. Também me lembro do momento mais emocionante que presenciei ao vivo no surf competitivo: a onda nota 10 de Slater com um tubaço e um floater quilométrico na praia da Barra da Tijuca em condições históricas, que resultou em uma comemoração na areia digna de um gol em final de copa do mundo.


Fotos de Beto Paes Leme na Mostra Nixon

- Dou uma volta pela área externa para conferir as demais atrações do evento e me surpreendo positivamente com a Mostra Nixon de fotografia e as pranchas históricas em exibição na área da revista Alma Surf. Ponto para organização que finalmente conseguiu concretizar minimamente o tão alardeado marketing de "divulgar a cultura de praia" para os visitantes.

- Apreciar uma seleção de fotografias em grande tamanho de caras como Fred Pompemayer, Ryan Tatar, Bruno Lemos e Beto Paes Leme é sempre inspirador. O conteúdo visual se completou à colagem de algumas campanhas publicitárias da Billabong, com destaque para os registros dos anos 80, tendo Occy como principal garoto-propaganda – campanhas divertidas justamente pela sua estética totalmente anos 80, com surfistas vestindo cores berrantes de gosto pra lá de duvidoso.


Assim era a surfwear nos anos 80

- Na seção de pranchas, destaque para uma réplica das clásicas madeirites dos anos 60, modelos de Rico de Souza, Pepê Lopes, Mudinho, Homero, chegando à cópia da prancha que deu o títutlo mundial amador ao Fabio Gouveia – produzida pelo próprio. Um jeito divertido de percorrer um pouco da história do surf no Brasil.



- Ao fim do dia, o fato de surfistas como Slater, Taj e Fanning terem caído para a repescagem tornou a perspectiva para o dia seguinte mais atraente, pois teria a chance de vê-los novamente em ação. Mas analisando a tabela, o desânimo voltou: lá estavam os principais tops mundiais com seus duelos marcados em sequencia logo nas primeiras baterias do dia.

- No domingo, faço uma força para estar de pé as 7 para conferir a primeira chamada programada para o evento: sem nenhuma informação no site oficial, só consigo a confirmação meia hora depois - evento confirmado para iniciar às 8 horas. Ok, se sair agora, vou chegar lá por volta das 9:30, perder o filé mignon dos tops em ação e talvez pegue a bateria do Mineirinho. Assim como eu, quem estava em Floripa passou pela mesma situação e muitos certamente desistiram de encarar a chuva e resolveram esticar o sono de domingo.

- A sina da chuva parece mesmo acompanhar o campeonato mundial em Santa Catarina. Ao longo de todas as edições do evento, seja ele em outubro ou abril, uma massa de água insiste em sempre se instalar sobre a região (que é realmente bem chuvosa diga-se de passagem) e afugentar ainda mais o público.


Tempo ruim e ondas cheias não ajudam a atrair o público

- Pelo rádio, ouvimos que o trajeto interno entre a Praia do Rosa, onde estão hospedados a maioria dos surfistas, e a Vila está quase intransitável por conta da lama que se formou, restando a eles fazer o caminho mais longo pela BR-101. Ficamos a imaginar o desânimo da rapaziada que curte as baladas em torno do evento na hora de encarar as pirambeiras enlameadas do Rosa em busca de curtir as muitas “festas oficiais” que pipocam nessa época.

- A equação é simples: chuvas fortes + distância dos grandes centros + baterias com maior apelo começando logo no início do dia = pouco público. A pergunta que fica é se os organizadores não poderiam ter analisado estas circunstâncias e optar então por adiar por pelo menos em um hora os início das baterias, ou mesmo inverterem a ordem delas? Se levarmos em conta que nem a transmissão online estava funcionando e nem o canal Sportv, que detém os direitos de transmissão exclusiva na TV, se dignou a transmitir o evento, a conclusão a que chegamos é que apenas alguns gatos pingados assistiram às performances de Fanning, Taj, Slater e Adriano de Souza na manhã de domingo. Péssimo retorno para o investimento dos patrocinadores!

- A verdade é que até o meio da tarde de domingo, apesar do mar ter melhorado bastante e da chuva ter dado uma trégua, o público era bem fraco e não se pode culpar o seu desinteresse, haja vista que as últimas bateria que poderiam empolgar os menos fanáticos, depois das acima citadas, seriam a de Andy Irons e a do último representante nacional, o simpático Jadson André, que com um surf sólido, conseguiu avançar na competição.


Tudo bem com Jadson

- Simples e descontraído, o jovem Jadson passou grande parte do dia circulando pela área de imprensa. Presenciei uma conversa divertida entre ele e Ricardo Bocão, que, do alto da sua experiência de décadas de cobertura jornalística de eventos de surf, aconselhou o estreante na elite mundial a se soltar mais nas entrevistas e fugir um pouco do politicamente correto e das respostas robóticas, estilo jogador de futebol, mesmo porque ele é jovem e tem o direito de inovar. A sugestão partiu da análise de uma entrevista de Jadson no dia anterior, que, ao ser perguntado pelo repórter: “E ai tudo bem?”, respondeu “Tudo bem!”, mesmo tendo acabado de perder a sua bateria. Na divertida conversa, Jadson explicou a Bocão que “Tudo bem” é diferente de estar “amarradão”!

- Falando em politicamente correto, Andy Irons demonstrou profissionalismo diante de seu patrocinador, a Billabong, após a sua derrota na repescagem. Terminada a bateria, ele engoliu a decepção e o mau humor e ficou por mais de meia-hora atendendo aos pedidos de fotos e autógrafos dos fãs que se amontoaram ao seu redor na saída da água. E assim, ele busca reconstruir a sua imagem de campeão, arranhada pela fama de antipático.

- Encontro Júlio Adler na área de imprensa. Aproveito para conhecê-lo pessoalmente e confirmar com o melhor analista do circuito profissional algumas percepções sobre o evento: O campeonato está em suas palavras “desinteressante” por conta do tipo de onda da Vila, muito deitadas e sem espaço para os atletas oferecerem o melhor de sua performance. O cenário de cima do palanque proporciona uma visão geral da praia bem interessante, contudo, as ondas em si quebram muito longe da praia diminuindo a emoção e a riqueza de detalhes oferecidas em cada manobra. Confira aqui a coluna que o Júlio está escrevendo para a revista Surf Portugal, sempre com o seu humor ácido e sacadas interessantes.


Adriano de Souza acha difícil competir na Vila

- As impressões se confirmam no depoimento de Adriano de Souza logo após vencer a repescagem. Ao comentar as dificuldades em surfar na Vila, onde apesar de ter feito a final no ano passado, sempre precisou da repescagem para se classificar, Mineirinho ressaltou a dificuldade em conseguir ler as ondas por conta da mudança constante das condições. Ele relatou inclusive que o mar havia mudado completamente durante a sua bateria, num cenário onde o desmepenho do surfista na onda fica muitas vezes em segundo plano diante de fatores como posicionamento e sorte.

- Fui embora antes do show “surpresa-anunciada” do The Beautiful Girls no fim de tarde. Por melhor que seja o som dos caras, fica a lembrança de que a organização decidiu repetir praticamente as mesmas atrações musicais do ano passado. Será que não existe alguma outra banda relacionada com o surf além dos australianos do Beautiful Girls, ou por aqui, a banda do Teco Padaratz?


Jadson em ação

- Por fim, não quero parecer crítico ao extremo, mas a verdade é que, no fim das contas, os momentos de emoção proporcionados pelo surf nesta etapa até o momento não foram suficientes para suplantar uma certa monotonia e o cansaço de ficar tantas horas seguidas assistindo às baterias. Não sei ao certo qual o formato ideal, mas o surf profissional precisa encontrar uma nova fórmula para conquistar o público geral, promovendo mais ação e emoção dentro d`água, pois do jeito que está, continuará a atrair somente os mais fanáticos. A sorte dos patrocinadores é que somos muitos!

Foto de abertura: Andy Irons - Crédito das imagens de ação: Antonio Zanella

4 comentários:

Felipe Siebert disse...

aaaaaaaaa eu fiquei em casa... hehe

Guma disse...

Otima analise,eu acho que eles poderiam inovar né,realmente as etapas ai na vila tem sido fraca,eles poderiam fazer um the search na etapa brasileira,pô tanto mar bom rolando por aqui em no litoral paulista,nordeste...

Anônimo disse...

Parabéns, excelente percepção e análise..

daniel caon alves disse...

Bom texto, parabéns! Eu também queria muito ter visto de perto um evento do surf competitivo, ainda mais da elite mundial, mas mesmo estando aqui em Florianópolis ficou inviável.

A impressão é que este tipo de disputa que se realiza no surf tornou-se tão automatizada que aquilo que seria interessante, a liberdade e a personalidade do esporte, continua e continuará por um bom tempo restrita ao soul surf.

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